quarta-feira, 10 de novembro de 2010

RECICLAGEM

RECICLAGEM


Já não sei dos dias,


já não sei das horas, nem dos meus limites


que se perderam todos no terno ofício


de pensar em ti.


Trago teu sorriso entre meus dedos,


teu olhar em meu rubor


e o teu perfume na memória,


- que os lençóis –


já se recusam a reciclar o tempo:


tão curto, tão louco,


todo rasgado em fantasias.


Basilina Pereira

GAVETAS

GAVETAS







O dia me acorda em preto e branco.


Abro a janela e...lá está: o sol,


com todo aquele dourado atrevido,


convidando-me à vida.


Por onde começar? Tantas gavetas...


algumas cheirando a bolor, sinal dos tempos.


Mas, então, já não é hora do descarte,


enterrar de vez aqueles sons


que surgem no meio da noite?


Mas como, se não há outra música para ouvir?


........................


Será? Às vezes, insistimos tanto em quebrar as pedras


e nos esquecemos de adubar as flores.






Basilina Pereira


terça-feira, 21 de setembro de 2010

DEVANEIO


Ah! saudade!


Como é bom acariciar o tempo,


momentos distantes, longes dias.


Pensar que o passado pode voltar numa luz,


deslizar sobre o horizonte, qual miragem.


E esses delírios...


que balançam precipícios!


brincam de esconde-esconde,


pegam carona com o vento


e até simulam voo só pra tirar os pés do chão.

A manhã, insistente,

pergunta por minhas asas.

Asas? Não as quero mais, tenho meus versos.
Basilina Pereira



sábado, 4 de setembro de 2010

O RISCO

O RISCO


De través, o verde da pedra.


A hora ignora a sua aparência de trilhos,


que viver é algo assim...


...como poetar.


Tem que se achar a palavra


que caiba no contexto


e deixar o RISCO


cumprir sua trajetória.


Basilina Pereira

AS HORAS


AS HORAS


As horas alimentam-se da compaixão:


COMPAIXÃO


pelos corações que pulsam no ritmo da monotonia;


COMPAIXÃO


por olhares que atravessam o silêncio do jardim,


sem sentir a presença do esplendor que lhes acena;


COMPAIXÃO


dos vultos ocupados, soterrados por paletós e gravatas,


tentando abrir um buraco na tarde


e voar sobre os seus sonhos;


COMPAIXÃO


pelo desejo de fuga dos que marcham sem sair do lugar;


COMPAIXÃO


pelo tempo perdido por quem se esqueceu


da predição da morte;


COMPAIXÃO


...


Basilina Pereira

sexta-feira, 23 de julho de 2010

A SEMENTE

A SEMENTE


O pensamento é a semente da palavra.


Alguns proliferam:


ganham coragem e voam.


Outros...morrem num olhar.

Basilina Pereira

AS DUAS PONTAS

AS DUAS PONTAS


O tempo é alento e martírio.


Nunca nos salva de querer mais,


quando o riso vem com asas.


E pesa feito uma vida


quando o longe é só fumaça


e o perto não convence.


Basilina Pereira

SUPERSTIÇÃO


SUPERSTIÇÃO


Agosto já não me assusta.


Ele chega com sua missão de varrer a terra


e plantar sob a sombra das árvores


aquele tapete seco que um dia será pó.


E só.


O sol inchado e amarelo quase geme,


fingindo-se de enfermo e maltratado pelo vento.


Mas eu o ignoro e sigo em frente:


mais dois passos e será setembro.


Basilina Pereira

terça-feira, 13 de julho de 2010

O CORTE

O CORTE



O vento da tarde levou todas as minhas palavras.


Vestiu-se de liberdade e, inexorável,


cortou as raízes dos meus versos


que ensaiavam nascer.


Órfã do que dizer,


embrulhei os sentimentos,


mergulhei no sincretismo do crepúsculo


e ousei...


como quem busca o último suspiro da existência.


Mesmo que o silêncio da hora impere,


que a lembrança esteja turva de saudades


e o verbo desconheça o tempo certo...


- o poema sabe de cor –


que a emoção não se pode conter.


Basilina Pereira

ALÉM


ALÉM


A chama que arde em meus pensamentos


não foi feita para queimar.


Sinto seu fragor e ouço o seu crepitar


no fundo de minhas retinas e choro...


são fagulhas de ousadia


que, de repente, pedem asas sonoras,


bem mais amplas que a liberdade.


Não sei a que posso aspirar mais do que sinto.


Mas quero!


Quero viver o dia seguinte


e inventar um passo que me permita ir além...


mesmo sem voar.


Basilina Pereira

quinta-feira, 3 de junho de 2010

OS AMANTES


OS AMANTES


Como custa passar o tempo


quando o crepúsculo é só uma miragem


e uma boca rubra exala ansiedade.


O inesperado está além do pensamento


e é inútil o desejo que se instala de véspera.


A felicidade também é isto:


uma equação feita de alegria e tormento


que a vida desenha e os amantes cumprem.


Basilina Pereira

domingo, 23 de maio de 2010

AUSÊNCIA


AUSÊNCIA


Meus passos vacilam


na ausência dos teus.


Querem o seu pernoite


na concha do caminho,


a companhia das pegadas


e aquele som macio, que não precisa de voz


pra dizer que está ali.


É esta ausência que me fará voltar.


Basilina Pereira

HIPÓTESE


HIPÓTESE


Se algum eu deixar de te amar,


canta a nossa música,


desembrulha o sol,


e acende uma vela sob a mangueira


onde nossos sonhos germinaram.


Se algum dia tu deixares de me amar,


queimarei o calendário


pra salvar a ilusão do amanhecer


e me postarei sobre teus pés


para que teus passos me levem na lembrança.


Se algum dia deixarmos de nos amar,


saberei que meu instante se perdeu do teu,


o teu sorriso desgarrou do meu


e a orquestra de sonhos que plantamos


não floriu um concerto final.


Basiina Pereira

domingo, 9 de maio de 2010

A TRAMA


A TRAMA


Em ti deposito o meu silêncio:


aquele que protege o teu olhar


na fissura de cúmplice


que abeira o abismo maior


de uma noite suspensa.






Se piso no teu sono,


é que em teu peito quero me aninhar.


Teu ombro me acende os veios trêmulos


e tira todas as dúvidas do lugar,


pra depois deitar teu cheiro


que se espalha ousado pelo ar.


E um berço de horas rege a trama


que o desejo não quer mais ocultar.


Basilina Pereira

O DORSO DA PALAVRA


O DORSO DA PALAVRA







O dorso da palavra me compele


a desvendar o mistério da tarde.


Aquele espaço que é de tempo,


de brisa


e ninguém sabe quanto vento ainda trará.


Se o ouro que transborda vem dos olhos


que garimpam emoções


ou dos versos que escondem o segredo das cores.


No poente, invento nuances até não ter mais tons


para rimar.


E nos sons que ora se abrem ora se fecham


colho mágoas e alegrias


até o poema se mostrar.


Basilina Pereira
TEMPO CONTRÁRIO


E nossos passos, contrafeitos,


deixam-se ir em direções opostas.


Em nossas lembranças,


chamados latentes


de um tempo contrário


onde um ímã que cintilava em nosso olhar


pulsava em forma de encanto.


Hoje, seguem lentos,


como se o peso do tempo


estivesse amarrado em nossas vestes


e não em nossos corações.


Em pequenos lapsos,


ressurgem pegadas outras


que convergem ávidas


para o toque das mãos,


mas como miragem,


o passado voa


e nós, seguimos a pé.

Basilina Pereira

quarta-feira, 14 de abril de 2010

RECORRÊNCIA



Acordo mais uma vez


após o mesmo sonho:


estou descalça no meio da multidão.


As pessoas me olham em desafio,


como se cobrassem uma adequação.


Sou inadequada: piso direto no chão


e sinto as pedras se movendo sob os pés.


A noite me desafia com seu silêncio.


A falta de palavras inibe o pensamento,


como se a ausência do som


espremesse minhas ideias.


A sensação é de nudez:


uma vida está vulnerável


porque falta uma peça no quebra-cabeça,


este que se insinua no meu sono,


e quando abro os olhos é vazio.


Os ecos da memória estão presos numa caixa,


cuja senha talvez seja a palavra “sapatos”.


Por que preciso deles,


se minha identidade está nas linhas da mão?


Até quando terei de me esconder no vão dos dedos


onde as reprovações não alcançam?


Basilina Pereira
ALTERNÂNCIA


Tenho dois cordões


que controlam meu pensamento:


um avança, o outro recua


e os dois se debatem sobre o ponteiro


que marca sempre a mesma hora.


Enquanto eu ergo os olhos,


uma luz me ultrapassa os cílios


por onde vejo dois faróis:


seus olhos continuam ali, indefinidos.


Se pelo menos houvesse uma fissura


por onde escorresse uma lágrima,


eu saberia...


mas na alternância das sombras,


só esse vinco rugoso


que desconhece


o quanto dói não saber.


Basilina Pereira

sábado, 13 de março de 2010

KAMA SUTRA


KAMA SUTRA


O poema é vento ousado


quando o assunto é poesia,


o amor tem que ser versado


seja noite ou seja dia.


Seu compasso busca a lavra,


balança o abraço invertido


e no orgasmo da palavra,


tudo muda de sentido.


Nada pode ser banal:


seu limite é o universo,


vale até rima carnal


nas entrelinhas do verso.


Basilina Pereira



terça-feira, 9 de março de 2010

SÚPLICA
Inspiração,


a ti dirijo-me


toda vez que o sorriso fecha,


a brisa se esconde entre a neblina


e o poema fica travado.


Imploro-te


por um cheiro de guirlandas,


pela cor quente da canela


e por um verso em Ré Menor


que me faça lembrar Beethoven


em sua nona Sinfonia.


Suplico-te:


quando eu for digna desse momento,


que ele seja humilde feito o beija-flor


e grandioso como o entardecer.


Mas que eu esteja lá – em transe –


e nem perceba que a lágrima


às vezes pode ser doce.


Basilina Pereira

domingo, 7 de março de 2010

SENSAÇÕES

SENSAÇÕES



Respiro fundo


para ver se alcanço o limite


da sensação que me escapa:


essa incerteza de voz


feito o eco de um grito,


que resvala e volta sem direção.


Confundo-me no ventre da noite:


há palavras que me açoitam


como se de suas asas fossem brotar labaredas


e outras que me acariciam,


sem mais nem menos, apenas para mostrar


que a ausência de luz na face


vai refletir na cor do poema.


Então, busco um sorriso naqueles dias


em que a primavera chegou antes do tempo


e escrevo...mesmo que seja só pra dizer


que há poesia num instante de silêncio.


Basilina Pereira

ATAÇÃO

ATRAÇÃO



Minha relação com as palavras


sempre foi de eterno querer:


uma atração meio ousada e avessa,


de desafio secreto e maroto.


Elas me instigam com sua apoteose de sentidos,


confundem-me quando mais preciso ser clara


e se escondem, por vezes,


no branco absoluto da memória.


Mas aí, eu as amo ainda mais:


quero-as o tempo todo em minha boca,


em meus silêncios e até na imaginação.


Eu, sem palavras, sou Sansão sem os cabelos,


a rosa sem seu perfume e uma praia sem verão.


Mas quando, num átimo, nos entendemos,


o meu Olimpo se enche de deuses


e, imbuída de seus poderes, eu faço versos


como quem planta seu suor na terra


para ver brotar a exuberância da semente.


Basilina Pereira



quarta-feira, 3 de março de 2010

POSSIBILIDADES



Que minhas portas se abram de mansinho,

isentas do sarcasmo e da tristeza,

longe dos ventos que não sejam mensageiros

para que eu possa pressentir a primavera.

Que as janelas descortinem para o vale

onde eu possa vislumbrar o horizonte

e, de carona, seguir a rota do mel

desenhada no contorno dos teus lábios.

Que meus olhos se deleitem com o jardim

e eu colha na quietude das flores

a certeza daqueles sonhos marotos

que desabrocham toda noite, entre as estrelas.

Basilina Pereira

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

UM ROSTO


UM ROSTO

No compasso dos seus passos


os meus passos seguem, lassos,


miram a lua - tão longe -


onde a felicidade esconde


o segredo bem maior


que a distância diluída


entre o meu corpo e sua luz.






No compasso dos seus braços


o meu corpo quer o abraço


minha mente quer a estrela


e só se aquieta ao vê-la


cintilando sobre a flor


como uma etapa vencida


feito um rosto frente à cruz.


Basilina Pereira

TABULEIRO VAZIO



TABULEIRO VAZIO


Hoje eu ouvi que o tempo não existe,


que é coisa da imaginação.


Se fôssemos uma árvore, um fóssil,


tudo estaria perfeito:


cada coisa em seu lugar,


não haveria passado nem futuro.


O aqui e agora seria um tabuleiro vazio


à espera...como?


à espera de quê?


se o tempo não passa de invenção dessa categoria de seres


que um dia inventou de pensar?
Basilina Pereira







FATALIDADE


FATALIDADE


Na luz da tarde eu espelho o meu poema.


Quero protegê-lo das rajadas de tristeza


esquecer as perdas


e só tecer versos alegres.


Então me lembro do ciclo da bananeira:


uma vez bordado em frutos é pleno ocaso,


e ninguém se lembra,


ao saborear seu doce fruto,


de que uma vida se fez mel


em pencas douradas de adeus.




Basilina Pereira



quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

ESTÁTUA DE SAL

ESTÁTUA DE SAL



Há uma porta que se fecha sobre mim


e no escuro não encontro a encruzilhada.


Meus olhos tentam vislumbrar, em lembranças,


a rota dos vagalumes que em outras eras


servia aos vagabundos.


Mas só pressinto teus olhos me abrasando,


ouço gritos que me navegam sem pudor


e tentam encontrar a saída


onde os poros latejam na total obstrução da luz.


Sinto ainda toda a nudez me castigando a pele,


adensando a noite numa canção de adeus.


As horas brincam de estátua de sal


no convés da minha boca ensandecida


que diz teu nome num disléxico poema


e grita toda a mágoa que a solidão camuflou.






Basilina Pereira

sábado, 9 de janeiro de 2010

MEUS LAMENTOS


MEUS LAMENTOS



Como tu sabes


vendo silêncios,


compro alegrias


por estas tardes.


Se amanheço,


embrulho os sonhos


que me embalaram;


se a noite chega,


miro as estelas


só elas sabem


dos meus lamentos.


Basilina Pereira

TATEANDO NO ESCURO


TATEANDO NO ESCURO



Persigo o silêncio que ruge


entre minhas idéias avessas.


Fujo de olhos e bocas que me espreitam...


Os pesadelos... esses procuro ignorar,


mas melhor seria se os enfrentasse.


Fecho as cortinas,


recuso-me a ouvir o canto das sereias,


que não me lavam a alma,


nem torna minha nuvem menos densa.


Desconheço o caminho sem pedras


e não encontro o melhor atalho.


Na dúvida, apago a luz


que a escuridão me aguça os sentidos.


Basilina Pereira

DISPERSÃO



DISPERSÃO



Se me procuro, não acho,


quando me encontro não vejo


a centelha que me move.


Há uma gaveta sem fundo


que sempre me faz voar


pra onde a vida não passa


e os desejos se dispersam.


Longe da voz que demarca


o sentido das palavras,


posso ser qualquer de mim:


a que chora, a que canta


e a que nunca entendi.


Basilina Pereira

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010


SE O POETA AMA


Sou feita de sonho:


nesgas recolhidas,


imaginação,


rota percorrida


por uma canção.


Sou cheia de vida:


talhada na carne


e solta no vento,


às vezes me invadem


antigos momentos.


Pedaços eu sou:


sou noite, sou dia...


sombrios, luzentes,


colheita tardia


que salva a semente.


Sou estrada onde


a seiva amanhece,


o verso me chama


e o poema nasce


se o poeta ama.


Basilina Pereira

INTENTO



Não dispenso nada:


quero minha rede


presa nas estrelas


e a esperança sóbria


pelas madrugadas.


Se a sereia canta


quero sua canção,


se o mar se agita


na arrebentação


isso não me espanta.


Se o templo ruir


sobre os sonhos meus,


dormirei em brumas


que nova utopia


há de me surgir.


Basilina Pereira
A MELHOR PRECE

A brisa que vem da vida

tem perfume de luar,

de canção nunca esquecida,

da emoção de amar.

Não há sensação mais leve

que caminhar sobre o dia,

se o sol lembra o que deve

ser motivo de alegria.

Ah! como tudo floresce

quando o sorriso insiste

em ser sempre a melhor prece

pra refutar o que é triste.
Basilina Pereira

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010






PERDAS






Vejo meu rosto se fechando na neblina


do tempo que escorre na ladeira;


os olhos se turvando, dia a dia,


pelas lágrimas que descem sem avisar.


O poente já não acende as fogueiras


e as estrelas solitárias se recolhem


ao fim da noite, sem atender aos apelos do luar.


As flores que bordavam meus olhares


quedam-se murchas, já não exalam perfumes.


Os passos lépidos da gazela em plena relva,


só marcam compassos e chamam a escuridão.


Restam-me hoje as palavras e as lembranças


que vagam soltas à procura do poema.


As noites vestem seus sussurros de mistério:


querem orvalho e o brilho dos vagalumes


e eu quero saber onde foi parar o meu brilho


que o espelho recolheu e não devolve.
Basilina Pereira





HÁ SE U TIVESSE



HÁ SE EU TIVESSE...







Há! se eu tivesse um amor


pra acalentar em meu peito,


com todo carinho e jeito


de quem sonhou o impossível...






por certo hoje estaria


de posse do som do vento,


que transforma este momento


em versos à luz do dia.






Há! Se eu tivesse esse amor!


Pouco mais me importaria


além da grande alegria


de abrigar-me em teus braços.






Basilina Pereira

OUTRO BRILHO


OUTRO BRILHO







Tentei reter o instante


que me vi no teu olhar,


mas querer não foi bastante:


ele seguiu, sem parar.






Se o tempo ido não volta,


que faço deste momento,


prendo com laço de solda


junto com meu sentimento?






Ou procuro entre as estrelas


outro brilho diferente?


Com tantas lembranças belas,


posso, sim, viver contente.

Basilina Pereira



Poesia na Varanda



POESIA NA VARANDA







Minha varanda é berçário


de sonhos, formas e cores,


do canto de passarinhos,


e de diversos odores






que embalo numa rede


tecida só de poesia,


na brisa amena da tarde


colho verso e alegria.






A metáfora vem só:


caprichosa escultura,


e na elipse do verbo


transforma-se em figura






de uma linguagem sutil


qual a cor do entardecer:


quando se olha é azul


e logo outra cor vai ser.






E assim me perco e me acho


no delírio do poema,


entrego-me aos seus caprichos:


sou só um bico de pena.


Basilina Pereira

O PONTO 'Z'


O PONTO “Z”


Procuro um ponto que oscile
entre a tarde e a manhã,
entre o frio e o calor,
entre a casca e a maçã.


Que fique entre aqui e lá,
talvez entre choro e o riso,
no meio de dois segundos:
é tudo de que preciso.


Um ponto que se coloque
entre a coragem e a ousadia
e de carona numa ideia
desafie a utopia.


Mas será que ele existe,
tão delimitado assim:
um átimo entre a razão
e a emoção que existe em mim?


Que desabrocha e aflora
só na presença do amor,
descarta esta que pareço,
busca a outra aonde for.


Seria o tal ponto...”Z”
que alguns dizem que não há?
Sei que existe, com certeza,
é questão de procurar.


Basilina Pereira

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

DIVAGAÇÕES SOBRE O SILÊNCIO

DIVAGAÇÕES SOBRE O SILÊNCIO

Dizem que o silêncio fala,
como será sua voz?
Quantas roupagens podemos lhe emprestar?
Quem cala consente, dizem ainda.
Será?
Talvez falte a resposta certa, só isso.
Ás vezes, fogem todas as palavras
que gostaríamos de dizer...
e também de ouvir.
Na calada da noite,
a ausência de som fustiga os pensamentos,
atormenta-os até,
pois que, presos em seu casulo sem cor,
nunca poderão revelar seus segredos.
Também já lhe cunharam de adorno,
feito do mais nobre metal:”silêncio de ouro”!
Em assim sendo, será que ele reluz?
Nada disso me convence.
O silêncio é mesmo o que é:
um hiato entre o pensamento e a palavra,
cada um dá a ele a nuance que quiser.

Basilina Pereira

CUMPLICIDADE

CUMPLICIDADE

Hoje amanheci
com o teu cheiro em minha pele.
Talvez porque dormi no teu sono
e acordei no teu sorriso.
O sonho que me rondou a noite
veio de longe...
dos dias em que não havia sombras
nem lágrimas.
Só cumplicidade no olhar,
música de passos,
abraços
e uma certeza plena de infinito.

Basilina Pereira

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

TINTAS



TINTAS


Meu verso não rima mais.

Cansou de esperar o amor

que me nega seus abraços.

E a lembrança dos seus beijos

vai sumindo na fumaça...

seus passos, com som de música,

já não aduzem esperança

e o brilho dos seus olhos

hoje dorme na distância.

Sozinha no quarto escuro,

junto tintas na saudade

e espalho no poema.



Basilina Pereira

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

CAFÉ DA MANHÃ

CAFÉ DA MANHÃ
Adoro o meu desjejum,
ou será café da manhã?
É com ele que desamasso meu sono,
acaricio os sonhos da véspera,
tiro a poeira dos olhos
e ergo um pedestal para o dia
qua acabou de acordar.
Basilina Pereira

domingo, 3 de janeiro de 2010

DE PEITO ABERTO

DE PEITO ABERTO
Abro a janela.
Há tanta vida lá fora:
luz, pássaros, flores...
e pensar que tem gente se matando,
maldizendo a vida,
lavrando no escuro
a terr aprometida...
por medo
de ncarar o novo dia,
de dar chance à alegria,
de abrir aquela porta,
de buscar o que importa
e enfrentar cada passo com coragem,
porque o longe, de repente, se faz perto
e o futuro acena de peito aberto.
Basilina Pereira

EM SILÊNCIO

EM SILÊNCIO O silêncio é a pedra de sal que resiste aos tremores da alma. Longe das madrugadas, o vento escorre lúbrico e colhe a sensação da chuva que transborda das paixões lunáticas. Só as estrelas descortinam... Seu medo não destrói o medo do escuro, mas transpõe a barreira das lágrimas e, em silêncio, descansa no poema Basilina Pereira