domingo, 22 de outubro de 2017

EMANAÇÕES


Amigos, o poema hoje veio miúdo, como um fósforo no meio da nuvem. Uma ótima tarde de domingo.
 
EMANAÇÕES

De amor também se vive,
tanto que suas emanações
perfuram o silêncio do post mortem
para gritar que a chama se apagou.
E lá se vão os dias: in off,
trançando as horas no tear da dor
e esperando que o lenço
seja maior que as lágrimas.


Basilina Pereira

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

DESCAMPADO

DESCAMPADO

Há um espaço a ser preenchido,
um descampado sem teto nem chão
que abrigava a música de um dia de sol.
É um vazio que ninguém vê,
um lapso só de memória,
com um fluxo subterrâneo
que alimenta a imaginação do que já não existe .
Todos os sonhos se afogaram.
Não há mais árvores que doem seus galhos
quando o grito ecoar pela tarde
fora do alcance da mão.
...
O tempo erguerá uma ponte - eu sei –
que unirá meu peito a um lugar seguro,
onde pássaros cantarão na língua das flores
e ao ouvir tais gorjeios,
talvez minha solidão emudeça
para que a noite me cubra em seu leito
com acordes de poesia.

Basilina Pereira

domingo, 24 de setembro de 2017

OS NÓS

OS NÓS

Existem nós que  não ajustam,
apenas prendem a linha
que não foi feita para o cárcere.
Ao unir dois pontos divergentes,
um se debruça sobre a ponta visível,
mas o outro esquiva sorrateiramente.


Basilina  Pereira

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

SER POETA

SER POETA
Ser poeta é ter fome, é ter sede de infinito. Florbela Spanca

Ser poeta é ser solo de drenagem,
um ser que veste a sombra para confiscar a luz
que brota, ardente, nos veios da madrugada,
em sonhos malversados feito rajadas de frio.
 Ser poeta é doer mais do que se pode
aguentar, sem um gemido o desamor,
a ausência que lampeja a todo instante,
no vazio que se faz maior que o mundo.
Ser poeta, muitas vezes, é andar só
pelas horas do instante absoluto,
é ter fome de um amor preso na lenda
e sede, muita sede, junto ao rio.

Basilina Pereira


domingo, 17 de setembro de 2017

DO PERDÃO

DO PERDÃO

Deixar sangrar a raiva,
até esvaziar o ego.
Depois, cobrir o sonho que vagueia,
à espreita,
como se o verbo tivesse caído do ninho.
O chamado da vida quer eclodir,
como a primavera em campo sem mágoa.
Cada verso do poema é uma seta de duas pontas:
uma voa descascando a palavra
que um dia reverberou fora do tom,
outra volta, renascida,
com asas de borboletas.

Basilina Pereira


domingo, 10 de setembro de 2017

MANHÃ DE DOMINGO


MANHÃ DE DOMINGO

E o domingo chega vestido de aromas,
(e ainda nem é primavera!)
ignora os gestos do sol na moldura das sombras,
só para cuidar da melancolia
que ronda teu corpo, tua mente, tua memória.
O tempo é sempre agora (convicção)
preso ou não na órbita da alegria.
No fim da curva,
muitos domingos terão desfilados por nossas vidas:
em prosa, em versos ou em gestos finitos.
Ou se escreve a vida em cores risonhas,
ou se constrói um túmulo sem galhos,
onde nenhum pássaro virá pousar.


Basilina Pereira

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

A ESTRADA DO ESQUECIMENTO

ESTRADA DO ESQUECIMENTO

Não há ontem, nem hoje.
Talvez amanhã.
Contudo, é apenas uma miragem
bem no fundo do espelho,
onde as olheiras dos sentidos
desenham formas de não saber
até onde a imaginação e a vontade
são capazes de produzir vibrações
para que a alma, miúda e trêmula,
ganhe roupagens de um depois.
A única coisa certa é a estrada.
Essa que não tem lonjura nem direção certa,
apenas  vultos de momento, sem cor, nem forma:
um desafio aos ouvidos do sentir.
É sempre adiante esse caminho abstrato,
uma escuridão a ser pisada,
para que a mão, a voz e os sons que brotam das trevas
possam hibernar na memória  
numa aventura de esquecimento.

Basilina Pereira