quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

O MOLDE

A palavra, in
domável, transborda.
Não há como fazer um poema
sem rasgar o verso na diagonal
e submetê-lo a arroubos e incertezas.
A verdade do texto está na semente,
na angústia de antever o que o espera
no regaço de cada linha
e na complacência do verbo
ao deixar a forma e tocar o sentimento.
E na árdua manobra para alcançar a superfície,
pode ser que as raízes aflorem
e, no estalido de um relâmpago,
deixem exalar um instante de poesia.

Basilina Pereira


sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

FRAGILIDADES

Como um passo no escuro,
assim caminha o sentimento:
pelas veredas de dentro.
Entre dúvidas e arrebatamentos,
o amor acha o seu jeito de dourar a alma,
assim como o sol matiza o horizonte toda manhã,
mesmo que em algum lugar
haja feridas congeladas no tempo.
Mas basta um passo em ladeira imprópria,
e lá se vai a frágil película...
e uma vez rompido o encanto,
é como se se o dia hibernasse em pleno verão
e a felicidade não tivesse preparado
um lugar seguro para onde ir.


Basilina Pereira

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

ETERNIDADE

ETERNIDADE

O tempo me sufoca,
invoca urgência,
na premência das perguntas:
nem o esplendor da aurora,
outrora um aconchego,
alivia essa carência de além .
Se eu fosse uma estrela,
abrandaria o negrume da noite,
que alimenta minhas dúvidas.
Estas, que desfiam... peregrinas, tateando
em busca da luz.
Eternidade - será aquele instante,
em que eu mergulho nos teus olhos
e o mundo para?

Basilina Pereira

terça-feira, 13 de janeiro de 2015


REVOADAS

Num esboço inacabado
vivo em revoadas.
O que me salva são os pensamentos
que transformo em palavras,
porque palavras têm alcance
Elas revestem aquele murmúrio
que percorre nossas veias
até desaguar na foz do mistério.
Não ouso entender a eternidade,
ela acontece longe demais do aqui e agora
ou, quem sabe, disfarça muito bem o para sempre.
No encalço da dúvida, recolho as perguntas
e escalo o verso,
se o poema germinar
pode ser que alguém vá em busca das respostas.

Basilina Pereira

domingo, 11 de janeiro de 2015


PENSAMENTOS ERIÇADOS

Todo dia é próprio a recomeços,
a rever promessas não cumpridas,
e a encarar as dúvidas que irrompem
sem pedir licença.
Nesse campo, tenho os pensamentos eriçados
e a imaginação solta e intensa
como a asa de um condor.
Trago, em posse ferrenha,
a sucata de minh’alma
e eflúvios de emoção transbordam em mim
assim: como se fosse possível antever as repostas
que ainda dormem num futuro sem data.
Mesmo sem saber a direção do vento,
presumo as velas e alinhavo o verso,
não é justo manter a palavra presa.

Basilina Pereira

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

O DESATE

Deparo-me com essa cascata de fumaça
onde jorram os nós,
que só eu posso desatar.
Tenho que reinventar o tempo
e reaprender a querer.

Basilina Pereira

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

O FIO DA MEADA

FIO DA MEADA

Olho as árvores no outono,
no seu ritual de libertar as folhas.
Tento esvaziar o pensamento,
mergulho no silêncio
e me deparo com esse chamado
que não sei de onde vem.
Busco a palavra nua
para depurar-lhe o a forma,
tento dialogar com o poema,
mas ele é rebelde feito o vento.
Não posso perder o fio da meada
se o verso que persigo trava, afrouxo a linha
e espero o inverno passar.

Basilina Pereira