segunda-feira, 12 de setembro de 2016


O BARCO



O BARCO

Nem tudo está bem, sempre.
Há fissuras nas raízes
e uma espécie de indecisão
quanto ao tempo que borbulha por dentro.
Arrepender-se não está na pauta,
nem na prateleira de fora
onde chovem perguntas que não ganham altura
e o sol se perde na quina dos beirais.
Sob a neblina, uma alegria ingênua resiste:
é ela que camufla os medos
e abre caminho como um barco em busca do porto.

Basilina Pereira

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

O BEIJO



O BEIJO

É preciso poesia para falar de amor.
O corpo recebe a seiva da fruta,
navega em seu perfume, abraça suas cores,
mas é o que vibra por dentro
que capta toda a dimensão do oceano e transcende.
No suor das palavras que se arriscam,
o prêmio poderá vir de uma gota
que desprendeu do paraíso
e ungiu dois lábios no êxtase de um beijo.

Basilina Pereira

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

INSPIRAÇÃO




INSPIRAÇÃO

A emoção salpica cores sobre o instante
como quem planta estrelas em plena tarde
e a moldura que sintetiza o poente
vai surgindo pronta pra rir e chorar.
A palavra que descansa enquanto cala
se apresenta ansiosa em exibir
o que o poeta pode, enfim, dizer do amor:
é o jeito mais intenso de sonhar.

Basilina Pereira

terça-feira, 23 de agosto de 2016

URGÊNCIAS




URGÊNCIAS

Não sei como domar o dia.
Ele amanhece calmo, faceiro,
espreguiça e boceja sob uma neblina indecisa,
mas depois acelera atrás do vento,
feito corcel mordido pela espora.
Tento uma ousadia qualquer,
como segurar firme o ponteiro das horas.
Que nada! Os minutos saltitam sobre a respiração
respingam chutes de urgência
e seguem velozes
como quem vai perder o próximo comboio
se não atropelar o pensamento.

Basilina Pereira

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

FRAGMENTOS-1




FRAGMENTOS – 1
I
O tempo tenta fazer-me outra.
Envolve-me em camadas tantas
que quase perco a cor do dia.
Mas à noite,
quando as horas pingam devagar,
eu ainda sei que sou a mesma.
II
Do outro lado é sempre escuro.
É por onde vago quando mergulho em poço de silêncio
e valho-me da rota de um vaga-lume.
III
É possível outro caminho.
O que não conseguimos trilhar
ficou detido em alguma fronteira,
ou descarrilhou em ponte de cristal.
IV
E, tendo se partido na queda,
a fenda é grave.
O sentimento é frágil
e por vezes não resiste às agruras do caminho.
V
Nesta via crucis dos dias
o que se impõe não é transgressão:
são escolhas
que nos devolvem o reflexo do espelho.

Basilina Pereira