domingo, 16 de abril de 2017

O BOSQUE


O teu sorriso talhado em pedras,
a rosa presa no olho da tarde,
a haste do afeto sem folhas, sem chão.
Minha incerteza pousada no silêncio da tarde
e tua voz, calada e tesa,
perdida no bosque de minha lembranças.
O dia segue preso, como a indicar o caminho
entre os bosques de galhos secos e perguntas
que desfio para tecer o manto
onde bordarei minha solidão.
Mantenho assim: abraçada ao regaço de uma espera
que me faz querer todo o viço das rosas
no brilho do teu olhar que mira, mas não me vê mais.


Basilina Pereira

terça-feira, 11 de abril de 2017

ROTINA

O dia amanhece calado,
o quarto espreguiça uma boa segunda-feira,
a cozinha espera por aquela mão artífice
que vai emoldurar o café,
expor as xícaras na posição certa
e, se o tempo permitir, ventilar alguns ovos
com aroma de manteiga e pão.
O jardim reclama do sol: conversa mole,
ontem teve chuva, apesar de hoje
a torneira lacrimejar apenas alguns pingos.
A rua começa a conversar com os carros,
ninguém acorda impunemente:
o filho a caminha da escola
soletra quiosques no seu verbete infantil
e meu coração não soletra nada.
É só mais uma manhã
entalhada num totem de afazeres.


Basilina Pereira

quinta-feira, 6 de abril de 2017

NO MUNDO DA POESIA

NO MUNDO DA POESIA

O dia não cabe no molde,
ontem foi outra forma
que derreteu com o pôr do sol.
Há que se inventar diversa alvorada,
com pássaros novos,
palavras que sobrevivem no deserto
a golpes de espada e iscas de escorpião.
Se a bromélia florir sem a chuva, é sinal de mudança:
pode ser que a poesia se abanque na beira do rio
e convença os peixes a jogar flores para os ribeirinhos.


Basilina Pereira

segunda-feira, 3 de abril de 2017

RENOVAÇÃO

RENOVAÇÃO

A palavra sangra na vertente do sentimento.
O vento sopra nublado
e a madrugada não quer florir.
O poema resgata lembranças
de joaninhas colorindo a grama,
borboletas em seu voo bordado
e vaga-lumes pontilhando o horizonte.
Há de haver um lugar
onde a esperança seja mais que um inseto verde
e a gente possa acreditar
que a vida é, sim, um caminho
onde se possa recomeçar.

Basilina Pereira


segunda-feira, 27 de março de 2017

OUTONO

OUTONO

Chega com chuva
e se aninha sobre as folhas murchas,
feito a saudade, desbotada, mas presente
do súber até o ângulo mais tenro
que aflora para conservar a vida.
Entre rugas ou sobre a relva,
entrelaça o dourado do sol
com os tons sagrados da terra,
aplica mudanças na paisagem,
no corpo e no olhar maduro
que tantas vezes já se despiu das flores
e abraçou o tempo como uma dádiva,
um orvalho sobre o nosso chão outonal.


Basilina Pereira

sexta-feira, 24 de março de 2017

ALEGORIA


ALEGORIA

O homem queria asas,
o pássaro queria pernas,
ambos pescavam miragens
e estrelas por dentro espelho.
Um dia o homem perdeu suas pernas
e o pássaro quebrou as asas.
As estrelas, por piedade, arremessaram seu brilho
sobre o maior lago que viram,
mas dentro dos olhos de ambos
nasceram abismos e lágrimas.


Basilina Pereira

quinta-feira, 23 de março de 2017

APARÊNCIAS


APARÊNCIAS

Quando penso nas aparências
que bailam com ou sem música,
nas vaidades atadas a e rostos e nomes,
minha pequena vida feita de raiz e terra
soa como um incidente minúsculo
que guarda aquela luz antiga, sem neon,
e não sabe até quando pode raiar.
Distância excessiva para percorrer em linha reta,
tempo minguado para recolher os estilhaços
que transbordam sob os pés.


Basilina Pereira