domingo, 19 de fevereiro de 2017

POEMA PARA DOMINGO

POEMA PARA DOMINGO

Pegar as letras descansadas
e plantar na brisa da manhã,
adubar com o canto dos pássaros
na primeira hora do dia,
quando o sol ainda é um poema veludado.
Pode ser que nasçam palavras divertidas,
ávidas por se agruparem em versos:
daqueles que fazem repicar os sinos
e despertem os guardiães da alegria.


Basilina Pereira

sábado, 18 de fevereiro de 2017

FRASCOS DE SOL


FRASCOS DE SOL

A felicidade não está à venda nas prateleiras da tarde,
nem pode ser encontrada no espaço, na retina das estrelas.
Se o caminho ejeta espinhos e a lua anuncia silêncio e breu,
há de haver outro trajeto, um lugar no tempo,
com frascos de sol guardados em ninho de memória
e um jardim possível de ser contemplado a dois.
A partir da semente: princípio, causa e motivo,
pode a vontade abrir a luz com os dentes
e extrair do oásis que cada um guarda em si
os fios de alegria que tecem e sustentam a vida.


Basilina Pereira

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

O ESPELHO QUEBRADO


 
O ESPELHO QUEBRADO

A imagem refletida no espelho quebrado
vai ser sempre contorcida
e mensageira do impacto
que rasgou a carne de dentro pra fora.
O sentimento ferido se debate
entre a palavra que voa revestida de dor
e a que atende ao chamado do verso
que, mesmo sem bússola, enxuga a lágrima
e arranha a face qual fora espinho.

Basilina Pereira


terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

O JOGO


O JOGO

o homem brotou sem asas,
o pássaro surgiu sem mãos
e no jogo do improvável
suas vidas se cruzaram.
Ambos sonhavam com lagos,
horizonte, céu, estrelas
e um pouquinho mais de voo
no tempo que engole tudo.


Basilina Pereira

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

FAGULHA

 
FAGULHA

Uma força irrompe
como o fogo do ventre da terra
e se instala no fundo do olhar, no ventre da boca,
entre o gesto involuntário
e o esboço da palavra ceifada antes do som.
Difícil domar essa fagulha
que ora parece sensível ao apelo do perdão,
mas logo se retrai, exacerbada,
centelha intrínseca de memória crua,
incrustada a ferro nas veias do sentimento.
E a vida se debate entre a adaga (que esfola a carne)
e o gume (que lasca por dentro).
Uma linha tênue assinala esse limite,
refém do tempo e seus prodígios:
há troncos que se recompõem
na sutileza do abraço entre a casca e a raiz;
outros, porém, continuam à espera de que a seiva
não se perca em nenhum atalho.


Basilina Pereira

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

SILÊNCIOS

SILÊNCIOS

Silêncios são retratos das palavras
que morreram antes de nascer,
ausências guardadas no escuro
para não serem sentidas
entre as vozes que desenham arcos
e simulam melodias vestidas de seresta.
O seu eco também fala
e reverbera nos trilhos de dentro,
(tão fundo)
que quase se chega a morrer de falta.
E quando se rompem,
tudo o que se quer é uma avalanche de sons
capazes de suprir e compensar,
mas nem sempre é possível!
Nem sempre...


Basilina Pereira

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

ORAÇÃO PARA QUALQUER HORA


ORAÇÃO PARA QUALQUER HORA

Senhor da vida e do amor,
se eu dormir com a luz acesa, apaga-a, por favor.
Pode ser que eu esteja com medo
e precise da Tua mão bondosa para afastar os meus monstros,
mesmo que eles só existam em minha imaginação.
Se eu acordar descrente,
acaricia-me com Teu olhar
para que a Tua verdade seja a estrela
que acenderá minha fé
quando as águas se mostrarem líquidas demais
para suportar o meu peso.
Se eu fraquejar na subida ou na descida,
fala comigo, lembra-me que estás a meu lado
dentro e fora da tempestade.
E se ainda assim eu precisar de um pai ou de um amigo,
fica comigo mais um pouco, leva-me no colo
como Tu fazias quando eu era o início
e me ensina ser: palavra que enleva,
confiança diante da pedra
e a voz que fala com Deus por meio da poesia.


Basilina Pereira