domingo, 23 de julho de 2017

MISERERE MEI

Sem explicação. Uma boa tarde a todos.

MISERERE MEI

Palavras não ditas
afogam-se na nascente dos olhos,
miram o vazio com a parte que cego
daria tudo para descartar.
E os filamentos de pergunta
que reverberam às margens do silêncio
vão se decompondo, aos poucos,
à míngua da coragem de saber
o que há no leito do encontro.


Basilina Pereira

sexta-feira, 21 de julho de 2017

DETALHES

DETALHES

No silêncio da noite, o escuro mostra,
com nitidez, o que a pressa do dia oculta:
a frase inacabada, a pergunta sem resposta,
as apreensões momentâneas
que inquietam os passos e o pensamento.
O relógio é só um detalhe
que picota o tempo e desequilibra a mente:
é tarde para partir, mas ainda é cedo para chegar.
Portas e janelas não se entendem: ora querem ser fechadas,
para suavizar os arroubos do verão,
ora precisam ser abertas:
há um horizonte lá fora e asas do lado de dentro.
Enquanto cisma, o poema rumina seu verso,
tange a palavra que medra entre um suspiro, um olhar
e a lembrança de uma voz que cochila
encolhida entre os lençóis:
há poesia mais pura do que ver a pessoa amada
respirar no travesseiro ao lado?


Basilina Pereira

quarta-feira, 19 de julho de 2017

CONVERGÊNCIA


CONVERGÊNCIA

Pela veia do poeta
transitam a tragédia e seu reverso.
É urgente trazer à tona
a fera que que ecoa na calada da noite
e a beleza que surpreende a manhã
com o simples acorde de um bom dia.
Quando essas duas forças se encontram,
é primavera no seio do verso
e não há nada que impeça o poema de alçar voo
e hastear a poesia no vértice da imaginação.


Basilina Pereira

quinta-feira, 6 de julho de 2017

ESSES SILÊNCIOS...

ESSES SILÊNCIOS...

Todos os silêncios
um dia seguiram o sopro do vento
e entoaram acordes de chuva,
rente às janelas dos sonhos.
Se hoje esse vazio se veste de cinza,
é porque sombras tortuosas
cobriram o lado estreito da bifurcação,
onde as outras cores se protegiam
dos sentimentos menores e das vozes mal iluminadas
que desafiam as estrelas na sua rota ancestral.
Sim, esses silêncios que sufocam o verso
e retardam a poesia são pura efervescência:
sustentam as vigas de cada palavra
do poema que ainda não nasceu.

Basilina Pereira


segunda-feira, 3 de julho de 2017

OS DOIS LADOS


OS DOIS LADOS

O sol tenta acalentar o frio
que congela por dentro:
no exato ponto onde a alma deveria descansar.
O peito oscila no ritmo da emoção,
segue as batidas que sustentam a vida
e aprende a ser o sopro que abre e fecha as portas
por onde, dizem, transitam todos os sentimentos.
Lá fora, ventos avessos ordenam
que um bambueiro se curve
e derrame folhas no telhado da tarde,
para que o poema tenha onde pousar,
caso o poeta consiga fazer do verso
uma fagulha que aquece os dois lados.


Basilina Pereira

quinta-feira, 29 de junho de 2017

LAPIDÁRIO

LAPIDÁRIO

Viver é colocar à prova a resistência da pele,
evitar o que perfura a textura mais crua
e enfrentar a fúria dos ventos,
como quem sabe domar o vendaval.
E quando a tarde se fizer calmaria,
retirar a cinza dos olhos,
depois de acariciar o imo da alma,
feito o poeta que lima o verso atrás da poesia.
Nem tudo que fere resulta em cicatriz,
o mesmo fogo que queima,
em mãos hábeis,
transforma, lapida e aquece.


Basilina Pereira

segunda-feira, 26 de junho de 2017

CALOR DO NINHO

CALOR DO NINHO

Amputaram minhas certezas
sem vedar-me os olhos.
Todo aquele calor no peito,
matizes de luz e sombra,
levantaram âncora à revelia de meus apelos,
deixando para trás um vazio que nenhum vento preenche,
um silêncio abarrotado de lembranças
e uma pergunta que deu meia volta e afundou.
Atrás da casa, um ninho verdeja entre os ciprestes.
Dentro dele, uma alegria possível lateja,
vou calçar os sapatos,
quem sabe eles aquecem por dentro.


Basilina Pereira