quarta-feira, 29 de julho de 2015


Neste fim de noite, um poema bem colorido.

ÍMPETO DAS CORES

A manhã rodopia em lilás
como se o céu tivesse sido pintado
pelo voo dos passarinhos.
O vento espalha todos os o tons
que conseguiu captar no crepúsculo
e, com suavidade,
enfeita o brilho da aurora.
Retalhos de nuvens absorvem o dourado do sol
e, em grande liberdade,
oferecem repouso para olhos cansados.
E, no ímpeto das cores, tudo é possível
para quem tem a coragem de sonhar.

Basilina Pereira

segunda-feira, 27 de julho de 2015

COMO O SILÊNCIO DAS PLANTAS

Tal qual uma espiga madura,
o que se exibe é o lado de fora.
O interior, esse mundo submerso,
segue camuflado como o silêncio das plantas
e o mundo avança, cúmplice
dos segredos que se escondem num vapor de luz.
O pensamento teima em faiscar: quer o poema sem fissura,
mas tudo isso está fora do alcance do poeta:
seu limite é o próximo verso
e a esperança de que a palavra transborde.

Basilina Pereira

quinta-feira, 23 de julho de 2015

AMIGOS



IPÊS EM FLORAÇÃO

Vai-se o rosa. Vem o amarelo.
E as manhãs de Brasília exalam cores
que contrastam com o céu
e roubam todo o azul do universo
para proteger o branco das nuvens.
Existem ainda o branco, o roxo,
o verde e o tabaco
que são mais tímidos e, por vezes,
passam despercebidos.
Mas os primeiros: o rosa e o amarelo,
eclodem em galhos secos e nos meses de julho e agosto
competem com o pôr-do-sol
ao capturar o que há de mais fundo no olhar transeunte,
pois quem vê a alma das cores
faz da tarde o seu momento de poesia.

Basilina Pereira

FACES DO TEMPO

Mais um dia
com promessa de renovação e júbilo.
Na bagagem, a experiência de ontem
e a expectativa do amanhã,
mas o tempo tem seu próprio compasso
e o passo nem sempre consegue nos acompanhar.
A orquestra matinal reverbera a vida passando
e a tarde pede outro canto,
porque o simples fato de existir é controverso.
No começo você está só com suas ideias,
e essas não lhe bastam.
Depois você está ao lado, em solidão,
e até a sua imagem quer outro rosto.
Por fim, o hoje. É preciso apagar as pegadas
do que não existe mais
e desenhar o brilho de outra constelação.

Basilina Pereira

terça-feira, 14 de julho de 2015


NO DORSO DO VENTO

No seio da terra,
tudo era promessa: plantar no escuro
para colher no ventre da próxima estação.
Vieram as aves, o sol
e tempo encolheu-se despois do susto.

Na lava chuva,
longe era um lugar que desafiava os caminhos,
abria os horizontes num emaranhado de cores
e todas as possibilidades
latejavam no fundo das pálpebras.

No dorso do vento,
senti todas as dores dos que caem
e não têm forças para voltar nem seguir.
O que ficou foi rejeitado pelo esquecimento
e o futuro não se vestia de esperança.

Nas bordas da sombra,
vaguei por becos irregulares,
tateando entre um pingo de luz
e a promessa de uma clara alvorada
que não tinha como alcançar.

Nos entremeios do sono,
voei sobre ravinas e penhascos
atrás dos sonhos em que me fizessem acreditar:
o amor é a dimensão maior da vida
e acontece de olhos abertos.

Mas ao abraçar a coragem,
descobri raras galáxias, sem limites,
e numa noite clara eu pressenti:
o impossível é só o medo
de desprender as asas e partir.

Basilina Pereira

domingo, 12 de julho de 2015


Um poema dominical, com overdose de lirismo.

NAS ENTRELINHAS

O poema amanheceu de ponta-cabeça.
Tomou uma overdose de lirismo,
encantou-se com a rima pobre,
quis dançar sobre um soneto
com versos emparelhados.
Mas depois se recompôs
e de suas entrelinhas
jorraram pingos de luz
para colorir os versos brancos.
A brisa abriu-se em lufas ritmadas,
de carícias tão suaves,
que o milagre se cumpriu:
atrás do verso, a poesia transbordou.

Basilina Pereira