quinta-feira, 25 de maio de 2017

A VIDA

A VIDA

Chega assim, banhada de orvalho,
notícia de uma porta que se fecha.
Para onde agora a vida?
Não mais o fio de hálito entre a mão e maçaneta,
não mais a hora inteira pronta a se desfiar em vértices,
todos atrelados ao ranger trava.
Como desvendar razão que assiste ao outro lado,
que chama mais alto que o estar aqui?
Trilhar este caminho é graça e ventura,
um fio de tempo que nunca recua,
uma flor que se abre única vez,
como a nuvem que desenha por instantes
a beleza  que se esvai, qual pensamento.


Basilina Pereira

domingo, 21 de maio de 2017

ALCANCE

ALCANCE

Chove lá fora.
Nuvens desabam sobre lembranças acesas
onde a verdade prende a respiração
para não sucumbir diante da farsa.
A bala destravada atira-se contra a pouca sensatez do lobo
que até ontem queria ser cordeiro.
E ainda quer, mas sua pele mudou de cor
e sua mão desprendeu-se do galho
onde os bombardeios não chegavam.
Chove aqui dentro.
Nuvens decoram a solidão que ora se inaugura.
Só a poesia segue isenta e limpa.
Mesmo que desliguem todos os pássaros
e apaguem todas as cores,
haverá um verso que se unirá a outro
e a pedra deixará de ser o que sempre foi
para se tornar metáfora.


Basilina Pereira

segunda-feira, 15 de maio de 2017

SEGUNDA-FEIRA

SEGUNDA-FEIRA

A luz abraça o novo dia
e os olhos, surpresos com o sopro da manhã,
recolhem o sono da véspera e abraçam as vozes
que respingam pela penumbra do quarto.
Ainda com vestígios de noite,
lembro-me: segunda-feira,
tenho de apagar o escuro,
acelerar a alegria que ontem desembrulhei com cuidado
e quebrar os seixos que escurecem a travessia.


Basilina Pereira

segunda-feira, 8 de maio de 2017

RECOMEÇO

RECOMEÇO

Não é sempre que se pode recomeçar.
Há perdas que são coices de cavalo selvagem
sobre a última centelha de luz,
areia movediça à espreita do primeiro descuido.
Mas se o dia seguinte vier com chuva na janela
e a grama acender a tocha verde no jardim,
então, quem diria!
até os seixos poderão cantar nos telhados,
ao som da flauta que reabre a vida.


Basilina Pereira

domingo, 7 de maio de 2017

POEMETO DO DESTINO

POEMETO DO DESTINO

Se Deus planta o certo em alas tortas
e o homem desperdiça o que colheu,
não é culpa do destino a letra morta
o amor passou e você não percebeu.
A estrada, às vezes, bifurca na lombada,
compete ao senso a escolha nessa hora
os descaminhos são o avesso da moeda
e a trilha certa pode, sim, ser encontrada.


Basilina Pereira

domingo, 23 de abril de 2017

SOBRE OS LIVROS

Tenho um fascínio pelos livros,
a começar pela capa,
onde tento ver, pelo avesso,
como seria um dia de sol
batendo nas geleiras do Ártico,
enquanto os salmões escrevem o poema de suas vidas
entre um salto bem sucedido
e a arcada dentária de um urso faminto.
Depois vêm as orelhas,
que degusto, com perspicácia,
tentando identificar o sabor de cada palavra
que me antecipa a natureza da viagem.
Por último, o mergulho.
Nunca se sabe o tamanho do risco,
mas uma coisa é certa: ninguém volta o mesmo
depois de salvar as palavras

do esquecimento e da solidão.

Basilina Pereira

domingo, 16 de abril de 2017

O BOSQUE


O teu sorriso talhado em pedras,
a rosa presa no olho da tarde,
a haste do afeto sem folhas, sem chão.
Minha incerteza pousada no silêncio da tarde
e tua voz, calada e tesa,
perdida no bosque de minha lembranças.
O dia segue preso, como a indicar o caminho
entre os bosques de galhos secos e perguntas
que desfio para tecer o manto
onde bordarei minha solidão.
Mantenho assim: abraçada ao regaço de uma espera
que me faz querer todo o viço das rosas
no brilho do teu olhar que mira, mas não me vê mais.


Basilina Pereira