quinta-feira, 23 de março de 2017

APARÊNCIAS


APARÊNCIAS

Quando penso nas aparências
que bailam com ou sem música,
nas vaidades atadas a e rostos e nomes,
minha pequena vida feita de raiz e terra
soa como um incidente minúsculo
que guarda aquela luz antiga, sem neon,
e não sabe até quando pode raiar.
Distância excessiva para percorrer em linha reta,
tempo minguado para recolher os estilhaços
que transbordam sob os pés.


Basilina Pereira

sexta-feira, 17 de março de 2017

PARA SEMPRE

PARA SEMPRE

Ser para siempre, pero no haber sido – Jorge Luis Borges

Sei que um dia deixará de ser para sempre,
o verde mudará de cor
e a janela não se abrirá frente ao jardim.
Mas em algum lugar haverá outras mãos,
vermelhas de urgência, suadas de emoção
e quando delas brotar o encontro,

lá estaremos, você e eu.

segunda-feira, 13 de março de 2017

A RODA DO TEMPO


A RODA DO TEMPO

O sono despenca sobre os minutos
que vão me colhendo de mansinho.
Há tanta leveza em torno do quarto, da casa,
que contrasta com o peso dos olhos,
ciosos do seu momento de entrega.
Na rampa do espelho,
um resto de luz tenta distrair a noite,
enquanto a TV espalha notícias turbulentas
e segue anunciando o que não era para ser.
Em algum lugar bem distante o dia amanhece,
apesar das feras e dos meteoros
porque há estrelas e amantes para contemplá-las.


Basilina Pereira

domingo, 12 de março de 2017

SOBRE OS LIVROS

 
SOBRE OS LIVROS

Tenho um fascínio pelos livros,
a começar pela capa,
onde tento ver, pelo avesso,
como seria um dia de sol
batendo nas geleiras do Ártico,
enquanto os salmões escrevem o poema de suas vidas
entre um salto bem sucedido
e a arcada dentária de um urso faminto.
Depois vem as orelhas,
que degusto, com perspicácia,
tentando identificar o sabor de cada palavra
que me antecipa a natureza da viagem.
Por último, o mergulho.
Nunca se sabe o tamanho do risco,
mas uma coisa é certa:
ninguém volta o mesmo
depois de salvar as palavras
do esquecimento e da solidão.


Basilina Pereira

sexta-feira, 3 de março de 2017

SE A POESIA FALASSE

SE A POESIA FALASSE

Se a poesia falasse,
o vento se calaria,
o sol ampliaria o seu sorriso,
o poeta se encheria de coragem
e indagaria
: como fazer pulsar o coração do poema?


Basilina Pereira

quarta-feira, 1 de março de 2017

A ORQUÍDEA DRÁCULA

A ORQUÍDEA DRÁCULA

Não chamas atenção por teu tamanho,
oculta na folhagem, expões teu silêncio
em forma, cor e leveza.
Espalhas espanto e falas com tua presença,
pela aparência e emoção que despertas:
um símio, com folhas ao derredor
ou drácula por seus filetes delgados
que bailam no avesso da cor?
Em pouco lembra a orquídea
no seu realce e esplendor,
mas é fiel a sua estirpe:
pétalas, sépalas e labelo,
em tudo um poema em flor.


Basilina Pereira

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017