terça-feira, 31 de março de 2015

EQUIPAGEM

No silêncio ouço o meu coração.
Ele rege o arcabouço
com as mesmas estruturas rubras do amanhecer.
Em sua rota: cumes, vales, tufões e maresias
encenam a rotina mesma,
sempre pronto para escalar o cume.
Tanta força para amparar a nossa fragilidade!
É que as formas da emoção exigem mais,
vão além do corpo e da hora,
é poeira d’água no brilho do cristal.

Basilina Pereira

segunda-feira, 30 de março de 2015

TRANSMUTAÇÃO

Quis colher o tempo na varanda
e vi teus olhos dentro de uma flor,
minha mão sentiu teu pensamento
e eu soube que não estava mais só.
Todos os ventos correram por minha veias,
algumas coisas que não eram minhas
e pela aparência também não poderiam ser tuas,
de repente se tocaram e se fizeram nossas.
A vida que eu tinha fez-se luz:
um raio dentro do susto
na manhã que nasceu em mim.


Basilina Pereira

domingo, 22 de março de 2015

DURANTE

Não sei se quero chegar,
acho que gosto mais
das surpresas do caminho.

Basilina Pereira

quarta-feira, 18 de março de 2015

RITMO

Nem todos os espaços
ligam notas suaves, aprazíveis.
Há dias em que o sabiá não canta,
o sol se esconde em nosso olhar
e o poema nasce torto.
Ainda assim há beleza na cadência,
de onde nascem passos...belos passos
de uma dança que independe
de quantas letras
queriam estar na palavra amor.


Basilina Pereira

domingo, 15 de março de 2015

O MOMENTO DA QUEDA

Dentro do espelho busco a resposta,
mas só o tempo levará os temores
que ele mesmo incrustou na parede.
Procuro os longos bicos que buscaram o néctar
naquelas manhãs de um abril azulado,
quando as flores ainda se sentiam livres
porque do seu perfume as abelhas sabiam.
A minha pele avisa que o seu brilho pode apagar,
mas as batidas do coração seguem no ritmo da infância
e dos dias ensolarados
que sacudiam as copas das árvores.
Difícil é o trajeto das folhas entre a seiva e o cansaço.
Só mesmo um olho treinado para o espanto
conseguirá sobrevoar o momento da queda.

Basilina Pereira.

PS: Este poema está no meu terceiro livro; TEMPO CONTÁRIO, Ed. Verbis, 201q.



terça-feira, 10 de março de 2015

SEGREDO

Segredo: arma mortal,
que pode renascer da cinza mais fluida
independente do grito ou do silêncio.
É aquele nó que o tempo não dissipa,
a mágoa não corrói e a chuva não lava.
É a prisão que independe de grades,
o acervo que só vive quando morre.

Basilina Pereira

sexta-feira, 6 de março de 2015

TRAVESSIA

Um poema sem teto
e uma tarde perdida entre nuvens
são tudo que o poeta lamenta
em sua travessia sem bússola.
A palavra molhada de ternura
desenha a aura que sobreviveu ao caos
e resgata os traços que o tempo ignorou.
A criança que fui adormeceu na parede
para acordar em outro corpo
ávido por encontrar a antiga alma.

Basilina Pereira