domingo, 30 de dezembro de 2012

RISO FINGIDO


RISO FINGIDO

Lápis e papel
brilham como um anel
na superfície da mesa,
nenhuma surpresa!
- Sinto muito, sugere o riso fingido,
Do outro lado do pinho,
a carne recebe o espinho
e lágrimas de tinta preta
misturam-se com a caneta,
em sílabas amontoadas
que não querem dizer nada
soam ocas no aposento.
Como é cruel este momento!
em que a neblina chega,
com as palavras que dão medo:
demissão, desemprego.

Basilina Pereira

BRILHO EFÊMERO


BRILHO EFÊMERO

Olho a lua refletida em berço líquido
e me pergunto se é real a sua imagem
lembro de alguém que um dia me encantou,
mas se desfez como se fosse miragem.

Há sentimentos que se tocam e diluem
não adianta querer sempre o mesmo amor
que se dedica a alguém em plenitude
pois não há seiva que detenha  igual vigor.

Assim é que as estrelas têm seu brilho
diferente por vontade ou por destino:
quando entardecem vagarosas e felizes,
no alvorecer não entoam o mesmo hino.

O sentimento não difere das estrelas:
têm luz própria, como o tempo em seu altar.
 E as emoções: se precisamos vivê-las
também é certo que um dia irão nos deixar.

Basilina Pereira

QUIMERAS


QUIMERAS

Só um reflexo do antigo olhar
beija meu rosto.
A antiga certeza
deslizou com a chuva nos telhados.

O anseio por ternura
pisa em câmera lenta sobre um vidro opaco
e deixa um rabisco que ainda respira
à custa da pouca luz que o jardim conserva
entre o seu perfume e o chão.

Hoje ainda converso com as estrelas,
sobre o percurso que as motiva
e indago sobre o brilho que move a noite
depois da breve correnteza do luar.

E o que ouço não altera o meu trajeto
emoldurado pela tarde densa e pouca.

A noite volta escura e desfolhada
e dita versos perdidos, perdidos de mim.

Basilina Pereira

sábado, 29 de dezembro de 2012

O TEMPO DE CADA UM


O TEMPO DE CADA UM

Há o tempo de germinar e nascer,
contar estrelas até o amanhecer,
sair da casca, vencer o sol e buscar
um grão de lua neste universo sem par.

Há o tempo de ser rosa e encantar,
atrair os beija-flores pra bailar,
em seguida, ser a chuva no jardim
e desenhar um arco-íris sem fim.

Há o tempo de ser o toque da brisa
e afagar o coração de quem precisa,
contagiar-se com perfume do jasmim
e espalhar aos homens mesmo assim.

Há o tempo de ser estrela e brilhar,
correr atrás do sonho até chegar,
depois plantar a noite num sorriso
às margens do caminho mais preciso.

Há o tempo de ser nuvem e novelo,
metamorfoses sem raízes, só desvelo,
a fluidez é onda ao sabor do vento
que logo passa e nunca deixa lamento.

Há o tempo de ter calma e esperar
que a ferida cicatrize, devagar,
não se vê estrelas antes do crepúsculo
e a mágoa faz o coração minúsculo.

Ao final existe o tempo de partir,
nada é seguro se não há pra onde ir,
 tudo se aprende e também muito se ensina
tempo vivido é Fênix, nunca termina.

Basilina Pereira

ABISMO NO OLHAR

Ainda hoje me lembro da expressão ferida,
relâmpagos numa favela esquecida,
numa noite sem defesa.
Quem poderia vislumbrar?
Acaso ou descaso?
Uma cascata de lama engoliu barracos 
e os inocentes em seu sono.
 Silêncio esmagado...
e a chuva, cobrindo os olhos alagados
de uma mãe que chegara atrasada
e, atônita, incrédula, 
não sabia o que fazer 
daquele abismo no olhar.

Basilina Pereira

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

OUTROS MOTIVOS DA ROSA


OUTROS MOTIVOS DA ROSA

Ser rainha do canteiro
não é seu fito primeiro
nem a mais bela das flores
que dita versos e  amores.

Ser rosa é vencer o espinho
correr por tênue caminho,
ser luz que enfeita a  manhã
com cor e tom de artesã.

Vejo ainda outros motivos:
uma brisa, um ar furtivo,
um caminho de perfume
que, qual flecha, acende o lume

das estrelas que, apagadas,
choram, querem ser amadas,
pela lua e seu clarão
numa  noite de verão.

Ser rosa é não ter vazio,
vencer o outono e o frio
do inverno e, de alma nua,
desabrochar em plena rua.

Basilina Pereira

O TEMPO EM PARIS


O TEMPO EM PARIS

Paris sobrevoa o tempo
e o tempo se esconde nos vincos da memória.
Perdidos em cada esquina, um eco da História,
uma folha de plátano, um bêbado provocando a noite.
Entre as cinzas do relógio,
uma sirene acorda o dia
e a multidão tropeça em seu próximo passo.
De longe, uma fumaça se agarra às mansardas, 
onde a neve um dia foi branca
e só os olhos insones, escuros, quiseram estar mais próximos da luz.
Paris desafia o tempo, mas o tempo está nas janelas
e na terra varrida pela lua que, vez ou outra, pergunta:
- onde estão os enamorados?

Paris, 17.07.2008

Basilina Pereria

SOB A FACE

Tu és o que pensas e não o que aparentas.
Guarda o delírio que te persegue
e na voragem da tua alma que vaga,
planta tua busca no veio da intuição.
Dela poderás colher o abismo ou a alvorada.
No abismo, verás o medo e a tua própria face,
 aquela que se esconde do espelho.
No alvorecer, que desafia a esfera do homem,
verás o reflexo da luz,
os perigos do horizonte,
mas chegarás ao outro lado
onde a tua imagem não mais te negará.
E quando renasceres sobre teu próprio passo
serás a centelha 
e a essência do que és e não vês.

Basilina Pereira

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012


POESIA MODERNA

Sou quase um desajeitado
dizem alguns bens versados
na poesia do momento.

Porque ainda sou da rima,
pelo ritmo tenho estima
e admiro um bom soneto.

- O soneto é ultrapassado!
dizem os mais apressados
em criticar meu poema,

hoje é poesia  moderna:
 troca o braço pela perna
e quebra o verso no meio;

- abaixo a sílaba poética
e quem liga pra estética,
o verso  é branco, marginal...
....................................
Que chegue o novo, está bem!
mas é do agrado de quem?

Ainda me pedem pra rimar
aqui... e em qualquer lugar.

Basilina Pereira

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012


THE ANSWER IS BLOWING IN THE WIND

Nunca se sabe se a nuvem
espera o beijo do sol
ou se o vento que é de ferro
vai lhe esmagar contra a luz.
Mas sabe-se que, no momento,
espumas criam raízes,
constroem sonhos no olhar.
Na berlinda da esperança
o sopro (maior que o medo)
arregimenta as perguntas
e edifica uma resposta.

Basilina Pereira

domingo, 23 de dezembro de 2012


POEMA NA TARDE

Não tenho clara a visão do infinito
atrás da poeira e da vista.
Minha alma escorre perdida
e o caminho é o mesmo labirinto.

Homens passam cavalgando seus sonhos.
Mal sabem eles que atrás daquelas cortinas
tudo é limbo, nuvens difusas,
 e o olho que cobre a noite não acorda ao amanhecer.

Há trinta anos tive pressa de chegar.
Há vinte, corri atrás de respostas.
Há dez, afoguei-me entre dúvidas.
Hoje, só quero este momento.

Basilina Pereira

OUTONO NO PARQUE

Meu outono confunde-se com o parque.
Sentimentos pisam o tapete dourado,
aquele chão bordado de folhas,
que, no porta-passos da emoção,
tenta descobrir por que há tantos lugares vazios.
As árvores só observam.
E meus pensamentos voam atrás das palavras
ou traços de lembranças
de uma paixão que viu tremerem aqueles bancos
que hoje repousam sob um amarelo-esquecido,
como se não fosse descendente do sol.
E a quietude do ar se mescla a minhas lembranças.
Inverto o olhar...
Tento descobrir sob a minha pele
  uma última flor derramada do verão,
uma única flor...
que possa exalar seu perfume
e reviver algum momento de emoção.

Basilina Pereira

sábado, 22 de dezembro de 2012

ECOS


ECOS

Só um coração sem asas
perdido na parede da noite,
pra aguentar essa ausência,
essa espera, espumas sem bolhas,
que flutuam no reverso da onda.
A mais remota ilha reverbera
os ecos dessas vozes sonâmbulas
que perturbam minha alma
em sua insólita viagem.
Caminhos, pássaros, segredos,
onde foi parar o vento
que, na calada da noite,
 me trazia o seu perfume?

Basilina Pereira



sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

TRANSCENDÊNCIA


TRANSCENDÊNCIA

Senti minhas asas queimando em seu olhar.
Aquele fogo derretia minhas sebes
e uma luz me ofuscava como flecha envenenada,
tingindo a água que passou a verter de meus olhos.
Os sons circundantes ecoavam como banalidades
e as cores mais pareciam figuras bizarras
exalando aromas, numa apoteose litúrgica.
E eu, atingida por narcóticos olhares,
senti-me, de repente, envolvida em sedas
tomada, ora de estranho sensualismo,
ora de desejos espiritualizados,
como num sonho macerado de glória,
sedento do enigma daquele êxtase.
Perdi o tempo e a lucidez.
Só vi uma orquestra moendo meus sentimentos
e um vulcão a fremir em meu peito,
volvendo espasmos a voejar em volúpia e brasas.
Esfinge, desencanta-me,
antes que a tarde enlouqueça de vez
e eu comece a dançar sem os pés.

Basilina Pereira

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012


O LUME

Hoje o cansaço me feriu os olhos,
que já não captam a luz na imensidão.

Sigo, ambulante, à espera da cor,
aquela que sobrevoa o nevoeiro

mergulha no respingo da chuva
e desabrocha ao encontro do sol.

Dizem que a chama alivia a fadiga
porque reproduz o brilho das estrelas.

Eu só quero a promessa de um lume nas retinas
para me livrar da escuridão.

Basilina Pereira
  

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

VIRAÇÃO


VIRAÇÃO

Sopra forte para derreter meus temores,
vento das alturas,
sopro das manhãs,
lava minha alma carente de amores
aragens maduras,
frescor de maçãs,
que o dia ainda chora a ausência de flores.

Canta nas janelas uma canção de mel,
brisa benfazeja,
aura de mil cores,
dança entre as folhas, enfeita o papel,
lufa que troveja,
alento dos condores,
traze a liberdade, clareia o meu céu.

Basilina Pereira

DEIXA


DEIXA

 

Deixa a noite te abraçar por inteiro

e te adornar os olhos de sonhos,

para o cansaço te deixar ligeiro,

e o amanhecer não te encontrar tristonho.

 

Deixa o sono transpassar teu leito,

a madrugada te lembrar o orvalho,

o vento brando te afagar o peito

e levar a dor num lenço de retalho.

 

Deixa as estrelas dormirem no azul

até que a lua lhes cubra de prata

os vaga-lumes mostrarão o sul

para as cigarras, hoje, em serenata.

 

Deixa o silêncio te mostrar as notas

que a nebulosa entoa num clarão,

só um poeta cata as letras tortas

se o amor voou atrás de uma canção.

 

Deixa a fumaça desenhar anéis

no labirinto do teu coração

que o hoje passa, o amanhã também

e o sol retorna em forma de verão.

 

Basilina Pereira

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

TE NAMOREI

TE NAMOREI

Um dia te namorei com inocência,
ruborizando-me a cada sorriso,
  mãos trêmulas ao roçar da pele.
Depois te namorei com lirismo,
tatuei teu nome em meu coração,
 vi teu sorriso descer da lua
e teus olhos brilhar na escuridão.
A seguir te namorei com paixão,
senti a flama me incendiar o peito
e o sangue se desorientar todo
feito fogo ao sabor do vento.
Também te namorei com carinho
aquele afeto que transpassa o tempo,
tilintam sinos, colore o caminho.
Hoje te namoro assim:
no vento que um dia nos banhou na rede,
na ausência que transformo em poesia
e na saudade que, às vezes, me surpreende
como uma imensa onda.

Basilina Pereria
 

domingo, 16 de dezembro de 2012

PALAVRAS


PALAVRAS

 

Uma palavra não é só um vocábulo.

Pode ser a arma que apaga um sorriso,

a bomba que provoca a explosão no olhar

ou a borracha que deixa um rosto

como uma página em branco.

Existe o termo que se levanta com o sol

constrói seu ninho nas estrelas

e se esconde no silêncio para não ouvir seu próprio eco.

Há ainda a fala que, mesmo prisioneira das cavernas,

vence a chancela do medo,

lança suas luzes contra o nevoeiro

porque chegou a hora

em que o verbo se desdobrará em vozes.

Palavras...palavras...

em tua essência, a fraqueza da arrogância

e a força da humildade.

 

Basilina Pereira

 

sábado, 15 de dezembro de 2012

A MONTANHA


A MONTANHA

 

A vida, às vezes, abre um buraco na noite.

Parece que o vento carregou as palavras

e só deixou rostos com janelas fechadas

e braços presos em seus próprios limites.

Surge um atalho que atrai com sua aparência atraente,

mas nuvens obesas ameaçam as sobras do sono

que não sabem que rumo tomar

 até o amanhecer.

Na bagagem: olhos camuflados, pesados silêncios, medo,

indecisão...

E há um caminho de fogo a queimar os pensamentos.

.....................................

É preciso que as palavras voltem,

arranquem a poesia das trevas

e abram espaço no espelho.

Pode ser que haja uma montanha a ser escalada,

 é o único jeito de se ver o outro lado.

 

Basilina Pereira

 

 

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

POEMETO DE LUZ


POEMETO DE LUZ

 

Amanhã quero encontrar

a tristeza de férias,

as janelas abertas,

as árvores vestidas de cores

e o verão sem pressa de terminar.

 

Basilina Pereira

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

POEMETO SEM LUZ


 

POEMETO SEM LUZ

 

Hoje é só mais um dia

em que encontrei a rosa fechada,

o sol apagado,

 a lua de ressaca,

e os versos pelo avesso.

 

Basilina Pereira

PASTORA


 

PASTORA

 

Sou pastora da poesia

cavalgo versos de anis

se rimo a noite com o dia

não sei bem por que o fiz.

 

Mas não consigo outras plagas

Outra forma de rimar

se solto a letra e as mágoas

esse é meu jeito de amar.

 

E assim caminho entre as linhas

do poema inacabado

catando dores tão minhas

vislumbrando o outro lado

 

onde o soneto não dorme

sobre um poema concreto

e a práxis vige conforme

seu próprio corpo e contexto.

 

Sou pastora da poesia

sob a chuva ou sob o sol

e as palavras, quem diria!

São a isca em meu anzol.
 
Basilina Pereira

 

ÊXTASE


ÊXTASE

 

Tudo começa de mansinho.

Há um arrepio que percorre o corpo,

um leve tremor de mãos e um rubor sutil

que aflora à face até quase derreter o olhar.

Olhos nos olhos, feitiço, centelha ardente...

a proximidade tão esperada é tímida,

ponta de dedos, macios,

relâmpagos de uma visão consentida

rumo ao ponto de chegada.

O toque, antes suave,

agora cresce, ousa, arrebata,

não há mais joio nem trigo,

só estrelas piscando à luz do dia,

um querer mais...ah! a libido!

afoita inflama, borbulha...

até que, ao fim, o momento

explode, em êxtase,

e o tempo perde definitivamente o sentido.

 

Basilina Pereira

 

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

A PORTA


A PORTA

 

Cresci vendo aquele muro

e aquela porta.

E a dúvida sempre ali:

o que haverá por trás

desse amontoado de tijolos

e o que esconde essa fechadura

sinistra, enferrujada e escura?

As perguntas ora protegem,

ora impedem o próximo passo,

o ato de vencer o medo

e engolir o segredo.

Mas há a dúvida:

essa que nos mantém atados,

como uma cortina na face

ou um céu de chumbo

que faz a vida parecer monocrática

à espera da queda ou do susto,

esse sim, nos fará aproximar...

girar o trinco e entrar.
 
Basilina Pereira

ATRAÇÃO


ATRAÇÃO

 

Cheiro de mistério

impregna minha narinas ensolaradas.

Há uma ameaça de nuvem cobrindo meu rosto

e o ar quente magnetiza meus olhos e minha mente.

Um arrepio me percorre o corpo

e as pernas trêmulas atropelam o passo

encolhido em sua insegurança momentânea.

Sua presença abre uma cratera

de medo, prazer e paixão

que escorrem pelos poros

até o limite da lucidez.

Com as mãos molhadas descubro

que a gente renasce, às vezes.
 
Basilina Pereira

 

 

TARDE DE DOMINGO


TARDE DE DOMINGO

 

A tarde na varanda desafia a minha imaginação.

A rede silenciosa e cansada recusa-se a colaborar,

esticada em seus punhos de  algodão doce.

Os pássaros do jardim, em tarde de gala,

executam seu pequeno concerto vesperal

sob a regência de um  colorido bem-te-vi,

 a percussão do “fogo-apagou”e

o coral de inúmeros pardais.

Borboletas amarelas desenham círculos entre as orquídeas,

 pousando aqui e ali em sua jornada simples e óbvia.

O vento parece ter se escondido nas cavernas

tamanha a quietude das folhas...

E eu me sinto parte desse mundo

e pergunto a meus pensamentos

como semear este momento de paz?

 
Basilina Pereira

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

PALAVRA (QUE)BRADA

PALAVRA (QUE)BRADA

Ás vezes é quase nada
só uma noção de sentido,
um sentimento doído
de uma frase mal falada
envolta e jogada ao vento
 folhas de verdes dormentes
que com o vigor da semente
dilacera o sentimento.
Relâmpago na madrugada
risca o olhar e queima a pele
palavra (que)brada fere
se não for dimensionada,
é mais que vela partida
tem luz própria, feito brasa,
queima o sonho e dobra a asa,
devora com letra a vida.
Basilina Pereira

terça-feira, 20 de novembro de 2012

O VERDE


O VERDE

 

A gente passa pela vida

ora amando ora sofrendo por um amor.

Uma vez me perguntaram o quanto eu era feliz amando

e como enfrentava os delírios da dor.

Respondi que meu jardim era sempre verde,

mas muitas vezes  não tinha flores.

Há quem saiba apreciar o verde

e também os que não vivem sem as flores.

Eu admiro todas as flores

mas aprendi a amar a orquídea.

Ela floresce apenas uma vez ao ano.

Sua flor é exuberante

e seu perfume...ah o seu perfume!

Sua floração dura mais tempo que outras

talvez para compensar a longa espera,

em que temos eu nos contentar

 com o verde de suas folhas.

 

Basilina Pereira

DESCOMPASSO

 

Entramos nessa estrada sem saber o que encontrar.

E na tentativa de acertar o passo,

cada um a mercê de seu próprio descompasso,

seguiu a estrela baça, solitária a nos olhar.

 

Ao longo do caminho, o silêncio perambulou solto.

Embora um mesmo cobertor envolvesse os nossos sonhos

a hora escura camuflou vultos  medonhos

e viu pedaços de ilusão boiar num mar revolto.

 

Por léguas, a viagem foi maior que a esperança.

Caminhos vazios assistiram a nevasca do amor,

onde teus passos, tua indiferença e teu riso sem cor

deixaram o inverno apagar nossa canção.

 

Tu detinhas o momento sem saber

e eu buscava aquele sopro de promessa

de mão nas mãos ou qualquer coisa mais que essa

aceitação de seguir só e ver meu rosto entardecer.

 

Basilina Pereira

 
SAUDADE

Era pra ser diferente
 mas um estrela cadente
aumentou minha fantasia
e eu sonhei à luz do dia
com fadas e vaga-lumes
e até senti o perfume
da trepadeira lilás,
cheiro doce de ananás
que vinha lá da varanda
onde se armava a ciranda
no quintal de chão batido
e tudo fazia sentido
de manhã ao entardecer.
Ouvi o canto das cigarras
que na maior algazarra
desafiavam os pardais
saltando sobre os beirais
do casarão de madeira.
E não foi a vez primeira
que imagens tão faceiras
me trazem recordações
de tão doces emoções
arquivadas na infância,
vivas e belas lembranças
das bolinhas de sabão
que me fugiam da mão.
Esses quadros na verdade
me acompanham na saudade.


Basilina Pereira

domingo, 4 de novembro de 2012

INOCÊNCIA


INOCÊNCIA

 

Bem no fundo deste mar

há uma concha bem fechada

lugar certo pra guardar

a pureza preservada.

 

Tantas águas já passaram

e sua crosta  inda resiste

seus veios já se afinaram,

mas a pérola ali existe.

 

Às vezes por atos falhos

 sonhos bons foram ceifados,

tantos gritos nos atalhos

e o horror dos mutilados.

 

Janelas vendem silêncio

e inconfessos patuás,

marcas tristes pelos lenços

perguntam: o que restará?

 

Pouca coisa , com certeza,

da esquecida inocência

flor ardida sobre a mesa

aguarda voz de clemência.

 

Ainda que o sol não venha,

mesmo que a lua se vá,

as estrelas têm a senha

e clamam pra luz voltar.

 

Basilina Pereira