sexta-feira, 8 de dezembro de 2017


É QUASE NATAL

É quase Natal.
A música se entranha nas cores
e junto a tantos sons e nuances
desenha promessas, expõe apelos nas vitrines
para seduzir o lado frágil da emoção.
Sim, é quase Natal.
Falta apenas acionar as marés
que desaguam no sentimento,
resgatam o sentido de (re)nascer no amor
em busca da paz na tribuna dos homens.

Basilina Pereira

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017


MISSÃO DO POETA

É  missão do poeta
vestir as palavras com as cores do arco-íris.
Pegar cada uma no seu momento de espera
e adorná-la com o sentimento purificado,
mesmo que em seu íntimo
ainda resistam algumas fumaças de dor e mágoa.
É missão do poeta cantar as nuances do amor,
ainda que sua rima empobreça o poema
com algumas lágrimas de despedida
e o enevoado da saudade que, vez ou outra,
irrompe no instante inesperado.
É missão do poeta destilar as pedras do caminho
e pintar auroras na dobra de qualquer esquina,
para que cada minuto reforce a certeza
de que é preciso, sim, enxergar flores
até no jardim de ausências.


Basilina Pereira

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

QUISERA

Quisera te encontrar na primavera
num crepúsculo casual feito quimera
e seguir de mãos dadas pelos campos,
 evocando perto e longe os pirilampos.

Sorver as sensações doces e quentes
que percorrem a alma, corpo e mente,
quando a paixão explode em tarde calma
colher o fruto que nasceu da palma.

Quisera te seguir nas tardes tortas,
abrir janelas e fechar as portas,
quando o verão acende os poros, confiante,
e ser tua gueixa, concubina, eterna amante.

Secar tuas lágrimas com a luz do luar,
ser o teu fogo até o inverno passar,
tocar a harpa, se te sentir triste
e descobrir que o outono não existe.

E assim viver contigo toda a vida
numa simplicidade complicada e esquecida
dos amantes que valsaram à luz do dia

sobre as rimas e o encanto da poesia.

Basilina Pereira

terça-feira, 28 de novembro de 2017

TUDO MOVE UM POETA

Escrever é preciso,
mesmo que a tarde permaneça calada
e a brisa de mau humor.
A tela, não mais a folha, está inquieta:
ela lê a minha alma e, cúmplice,
apalpa a minha imaginação,
acaricia os vértices mais escuros,
pois é lá...lá mesmo...que estão as fendas
por onde o poema poderá escapar.
E sem ferir o sentimento que reluta,
as letras vão se soltando: olham-se
e, no minuto seguinte,
juntam-se em busca da metáfora,
hoje camuflada numa palavra sem volta.

Basilina Pereira


segunda-feira, 27 de novembro de 2017

DETALHES

As gavetas do tempo não têm chaves,
deixam escapar vestígios
que a memória consegue captar:
a curva do seu braço no tobogã do meu ombro,
o anúncio daquele filme (de novo?)
a ser reprisado  na sessão das dez,
sua risada escandalosa que embrulhava a piada.
Há dias livres de fumaça
que chego a pensar em andorinhas
voltando fora da estação,
mas depois: o mesmo vulto crescendo,
como se a noite abraçasse o dia
e as estrelas quisessem me ofuscar
para não ver o jardim florescer.
Penso num jeito de confundir esses astros,
até me canso de tanto tentar,
esse é um detalhe que ainda não descobri.

Basilina Pereira


domingo, 22 de outubro de 2017

EMANAÇÕES


Amigos, o poema hoje veio miúdo, como um fósforo no meio da nuvem. Uma ótima tarde de domingo.
 
EMANAÇÕES

De amor também se vive,
tanto que suas emanações
perfuram o silêncio do post mortem
para gritar que a chama se apagou.
E lá se vão os dias: in off,
trançando as horas no tear da dor
e esperando que o lenço
seja maior que as lágrimas.


Basilina Pereira

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

DESCAMPADO

DESCAMPADO

Há um espaço a ser preenchido,
um descampado sem teto nem chão
que abrigava a música de um dia de sol.
É um vazio que ninguém vê,
um lapso só de memória,
com um fluxo subterrâneo
que alimenta a imaginação do que já não existe .
Todos os sonhos se afogaram.
Não há mais árvores que doem seus galhos
quando o grito ecoar pela tarde
fora do alcance da mão.
...
O tempo erguerá uma ponte - eu sei –
que unirá meu peito a um lugar seguro,
onde pássaros cantarão na língua das flores
e ao ouvir tais gorjeios,
talvez minha solidão emudeça
para que a noite me cubra em seu leito
com acordes de poesia.

Basilina Pereira