terça-feira, 28 de novembro de 2017

TUDO MOVE UM POETA

Escrever é preciso,
mesmo que a tarde permaneça calada
e a brisa de mau humor.
A tela, não mais a folha, está inquieta:
ela lê a minha alma e, cúmplice,
apalpa a minha imaginação,
acaricia os vértices mais escuros,
pois é lá...lá mesmo...que estão as fendas
por onde o poema poderá escapar.
E sem ferir o sentimento que reluta,
as letras vão se soltando: olham-se
e, no minuto seguinte,
juntam-se em busca da metáfora,
hoje camuflada numa palavra sem volta.

Basilina Pereira


segunda-feira, 27 de novembro de 2017

DETALHES

As gavetas do tempo não têm chaves,
deixam escapar vestígios
que a memória consegue captar:
a curva do seu braço no tobogã do meu ombro,
o anúncio daquele filme (de novo?)
a ser reprisado  na sessão das dez,
sua risada escandalosa que embrulhava a piada.
Há dias livres de fumaça
que chego a pensar em andorinhas
voltando fora da estação,
mas depois: o mesmo vulto crescendo,
como se a noite abraçasse o dia
e as estrelas quisessem me ofuscar
para não ver o jardim florescer.
Penso num jeito de confundir esses astros,
até me canso de tanto tentar,
esse é um detalhe que ainda não descobri.

Basilina Pereira


domingo, 22 de outubro de 2017

EMANAÇÕES


Amigos, o poema hoje veio miúdo, como um fósforo no meio da nuvem. Uma ótima tarde de domingo.
 
EMANAÇÕES

De amor também se vive,
tanto que suas emanações
perfuram o silêncio do post mortem
para gritar que a chama se apagou.
E lá se vão os dias: in off,
trançando as horas no tear da dor
e esperando que o lenço
seja maior que as lágrimas.


Basilina Pereira

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

DESCAMPADO

DESCAMPADO

Há um espaço a ser preenchido,
um descampado sem teto nem chão
que abrigava a música de um dia de sol.
É um vazio que ninguém vê,
um lapso só de memória,
com um fluxo subterrâneo
que alimenta a imaginação do que já não existe .
Todos os sonhos se afogaram.
Não há mais árvores que doem seus galhos
quando o grito ecoar pela tarde
fora do alcance da mão.
...
O tempo erguerá uma ponte - eu sei –
que unirá meu peito a um lugar seguro,
onde pássaros cantarão na língua das flores
e ao ouvir tais gorjeios,
talvez minha solidão emudeça
para que a noite me cubra em seu leito
com acordes de poesia.

Basilina Pereira

domingo, 24 de setembro de 2017

OS NÓS

OS NÓS

Existem nós que  não ajustam,
apenas prendem a linha
que não foi feita para o cárcere.
Ao unir dois pontos divergentes,
um se debruça sobre a ponta visível,
mas o outro esquiva sorrateiramente.


Basilina  Pereira

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

SER POETA

SER POETA
Ser poeta é ter fome, é ter sede de infinito. Florbela Spanca

Ser poeta é ser solo de drenagem,
um ser que veste a sombra para confiscar a luz
que brota, ardente, nos veios da madrugada,
em sonhos malversados feito rajadas de frio.
 Ser poeta é doer mais do que se pode
aguentar, sem um gemido o desamor,
a ausência que lampeja a todo instante,
no vazio que se faz maior que o mundo.
Ser poeta, muitas vezes, é andar só
pelas horas do instante absoluto,
é ter fome de um amor preso na lenda
e sede, muita sede, junto ao rio.

Basilina Pereira


domingo, 17 de setembro de 2017

DO PERDÃO

DO PERDÃO

Deixar sangrar a raiva,
até esvaziar o ego.
Depois, cobrir o sonho que vagueia,
à espreita,
como se o verbo tivesse caído do ninho.
O chamado da vida quer eclodir,
como a primavera em campo sem mágoa.
Cada verso do poema é uma seta de duas pontas:
uma voa descascando a palavra
que um dia reverberou fora do tom,
outra volta, renascida,
com asas de borboletas.

Basilina Pereira