sexta-feira, 25 de agosto de 2017

TELÚRICO


TELÚRICO

Um corpo engessado no espelho,
uma alma em queda livre
e todos os erros perdidos entre uivos e mantras
em busca da porta.
As dúvidas se desentendem
e cospem perguntas sem pés nem asas,
só aquela sensação de outono,
com bocas mastigando o silêncio
e o espírito sendo enterrado com vida,
incapaz de entender
de que é feita essa matéria
que se pensou conhecer um dia.


Basilina Pereira

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

PERIGO

PERIGO

A vida é movida a sentimentos
e estes estão, o tempo todo,

expostos a uma bala perdida.

Basilina Pereira

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

O GRITO DO SILÊNCIO

O GRITO DO SILÊNCIO

As vertentes gritam em silêncio
em sinuosas vozes crispadas, sem eco.
Aqui tão perto já houve um arco-íris!
Formou-se, luziu, encantou,
plantou a esperança num vaso sem fundo
e a chuva não veio, não veio a alegria.
Hoje uma gota flutua, sem tapete de folha,
na ausência da luz e brilho nenhum.
Mas se ainda assim ousassem buscar
a verdade legítima sem emenda ou aparas,

talvez não achassem. Quase certo que não.

Basilina Pereira

terça-feira, 15 de agosto de 2017

NÓ DE FUMAÇA

NÓ DE FUMAÇA

O que são esses momentos
que costuram a respiração pelo avesso
e lembram que a vida é também nó de fumaça,
caminho sem mapa, pilastra sem chão?
De onde vem esse quebranto
que se aloja sob a pele,
sem ruído nem medida, só silêncio,
à mercê de um tempo que não vai nem volta?
Onde coloquei a aldrava, que me permitia abrir o sol
semear a alegria no canto dos pássaros,
certa de que a noite me traria o verso bordado de estrelas?
O poema está ferido e todas as rimas jazem órfãs
dos sonhos que se perderam da poesia.

Basilina Pereira

 

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

MONÓLOGO DO FIM

MONÓLOGO DO FIM
       
Não sei de que feito o meu coração,
se de alegrias inventadas ou de tristezas indefinidas.
Acho que ninguém até hoje quis explorá-lo,
assim: como quem escava uma jazida
em busca da pedra dos sonhos.
Pode ser que o cascalho seja tanto,
que suplante o fim do dia
e o escuro que molda as relações humanas
engula a alvorada do poema.
Meus olhos são duas bocas famintas de amor.
Ao chorar pelo canto dos lábios,
envio mensagens de urgência, pedidos de socorro,
cartas postadas antes e depois da lágrima
em busca de um destinatário.
O passo seguinte é sempre um vácuo,
cravejado de perguntas esquecidas
ou, por outra, perdidas entre tantos mistérios
que dá medo traduzir
Pode ser que ninguém entenda,
ou não queira esticar os olhos até onde os fragmentos se tocam:
um lugar de encontros e despedidas.

 Basilina Pereira

domingo, 23 de julho de 2017

MISERERE MEI

Sem explicação. Uma boa tarde a todos.

MISERERE MEI

Palavras não ditas
afogam-se na nascente dos olhos,
miram o vazio com a parte que cego
daria tudo para descartar.
E os filamentos de pergunta
que reverberam às margens do silêncio
vão se decompondo, aos poucos,
à míngua da coragem de saber
o que há no leito do encontro.


Basilina Pereira

sexta-feira, 21 de julho de 2017

DETALHES

DETALHES

No silêncio da noite, o escuro mostra,
com nitidez, o que a pressa do dia oculta:
a frase inacabada, a pergunta sem resposta,
as apreensões momentâneas
que inquietam os passos e o pensamento.
O relógio é só um detalhe
que picota o tempo e desequilibra a mente:
é tarde para partir, mas ainda é cedo para chegar.
Portas e janelas não se entendem: ora querem ser fechadas,
para suavizar os arroubos do verão,
ora precisam ser abertas:
há um horizonte lá fora e asas do lado de dentro.
Enquanto cisma, o poema rumina seu verso,
tange a palavra que medra entre um suspiro, um olhar
e a lembrança de uma voz que cochila
encolhida entre os lençóis:
há poesia mais pura do que ver a pessoa amada
respirar no travesseiro ao lado?


Basilina Pereira