domingo, 1 de junho de 2014

A PROMESSA


A PROMESSA
 

O sol se deita com as lembranças

e feito um deus crepuscular

mergulha na noite

atrás da lua.

Seu desígnio é estar preso

à promessa de voltar.
 

Basilina Pereira

sexta-feira, 30 de maio de 2014

O VULTO


O VULTO
 
Um vulto na paisagem
e a montanha bem ao longe
rebate a poeira da estrada.
A planície já sumiu com o verde
e o riacho, pobre de peixes, tem que reinventar
o fluxo da vida.
Sob o azul disfarçado de nuvens
o engarrafamento dos sonhos,
numa leva de espinhos
que se debate entre a fumaça
do próprio sangue.
Já não há janelas brancas
e as chaminés vomitam pedras conformadas
no colo do asfalto.
Mais à frente é noite
e não adianta
ir atrás das borboletas. 
Basilina Pereira

quinta-feira, 29 de maio de 2014

ORAÇÃO


ORAÇÃO
 

Hoje eu quero colher no vento

 o milagre de cada dia,

a esperança cheia de ninhos

e muitas palavras abertas para o sim .

Mas se por qualquer acaso

as pedras insistirem no não

e o sorriso se recolher ao engano,

que não me falte coragem

para seguir em busca

da verdade, do sonho

e do perdão.
 

Basilina Perera

segunda-feira, 26 de maio de 2014


O QUE TEMPO NÃO LEVA
 

O relógio da parede

recusa-se a prender a hora.

Em sua trajetória de sonhos,

 só faz repetir o instante:

fragmentos perdidos  e não vividos.

Ah! como esse  pêndulo nos devora!

Leva embora o nosso brilho

e nos devolve opacidade.

Até um traço de azinhavre

deixa escondido entre lembranças

sobrepostas em camadas

que, ao final, é quase nada

ante a voracidade do tempo

que camufla as emoções

e dissipa até a mágoa,

só não... as ideias:

essas permanecem

e renascem numa gota de orvalho.
 

Basilina Pereira

domingo, 25 de maio de 2014

TALVEZ


TALVEZ
 

Talvez um dia seja pouco

pra eu  me lembrar do teu olhar;

talvez um mês não seja tanto

pra tecer versos ao luar;

talvez um ano seja nada

ante o meu desejo

de te amar mais do que posso.

Talvez a minha incerteza

seja a única coisa certa;

talvez... a minha saudade

seja tudo que ainda resta.

 

Basilina Pereira

segunda-feira, 19 de maio de 2014

BUSCAS INCERTAS


BUSCAS INCERTAS
 

Quantas rugas a franzir os cenhos

que cavalgam buscas incertas

em cada existência desfocada.

Nenhuma nau está isenta

do tufão que varre a margem oposta.

Lá, onde o grito é mais agudo

é difícil camuflar a mágoa

que consome as metáforas da noite.

Foram abolidas todos as mezinhas

que abrandavam as artérias cansadas

e faziam florescer o sorriso.

Agora, apenas o galo canta como antes,

mas o homem só se levanta

com o despertador.
 

Basilina Pereira

domingo, 18 de maio de 2014

O PENSAMMENTO DAS ESTRELAS


O PENSAMENTO DAS ESTRELAS
 

Eu costumava ler

o pensamento das estrelas.

 Em noites de vaga-lumes,

elas piscavam em dourado

e escondiam as outras cores,

para que eu  decifrasse o seu segredo:

queriam o vermelho: sem sangue,

o preto fora do luto,

o verde com a esperança

e o azul em tons de festa.

Quantas brincadeiras!

Por vezes, elas me pregavam aquele susto:

lançavam-se em queda livre

e deixavam um risco de ouro no céu.

E aí eu pensava: como não atinei para isso?
 

Basilina Pereira