POEMETO DE LUZ II
Corais, anêmonas, cantai!
que o tempo ainda vige
e a noite conserva o brilho do sol.
As cores permanecem morenas
e os homens ainda se apaixonam.
Cantai, que o mundo é sábio...
Vem o verão
e derrete os fantasmas
e conserva as pétalas
e proclama o império
da luz, em um sorriso.
Basilina Pereira
O LAGO
No espelho das águas,
a imagem ilusória da minha face.
O silêncio de veludo recusa
o pensamento perdido,
a desilusão das flores,
a felicidade remota...
A solidão pode ser boa companhia
bastam
um lago,
muito verde
e a contemplação.
Basilina Pereira
ABISMO DE MIM
Planto meus sonhos na tarde.
A noite me sussurra segredos
e me presenteia com estrelas.
Só o vento permanece calado.
Talvez porque não haja amores
para acariciar
ou as cicatrizes se mostrem tão profundas
como o abismo de mim mesma
que eu tento, tento...
e não consigo transpor.
Basilina Pereira
IMAGEM
De que me servem as tardes serenas,
com tantos pássaros em cantoria,
cheiro de brisa que me sopra, amena,
se a lágrima brota e escorre, fria?
Parece até dor de pensamento
que remete a um tempo insepulto
e sempre volta a qualquer momento
travestida na miragem do seu vulto.
Como um náufrago, me vejo, num instante,
querendo o brilho da estrela cadente
pra fugir dessa imagem constante
tatuada e viva no arquivo da mente.
São ecos de um amor que foi real
como é o vento, a pedra e a água fria
e, de repente, volta feito vendaval
e só acalma no remanso da poesia.
Basilina Pereira
DESAFIANDO A GRAMÁTICA
enquanto a gramática dita
suas regras bem descritas
vem o verbo irregular
com seu modo singular
e quebra toda a sequência
do prefixo à desinência
tudo fica bem confuso:
a ortografia, a semântica,
lembra até física quântica
no seu duo fé e razão
como se escreve sessão(seção?)
pontuo a frase no fim?
e se não for bem assim?
devo me centrar no verso?
não quero poema disperso
vou cavar o sentimento
captar todo o momento
de beleza e de emoção
e onde fica a oração?
hoje eu prefiro a magia
à noite ou à luz do dia
e a gramática, quem diria?
vai se render à poesia
Basilina Pereira
PALCO
O amor é uma quimera
ou algo que cabe na mão?
Muitos nascem destinados
a viver de ilusão,
andam por praias desertas
mergulham na escuridão,
procuram peixes na areia,
frutas fora da estação.
Mas há os que colhem flores
não importa o inverno ou verão
nem quantas pedras leva o rio,
se está livre o coração
pra dançar com a lua cheia
e espantar a solidão,
amar até que toque o sino
e apague com um beijo o vulcão
que a vida sem sonho é nada,
é palco sem emoção.
Basilina Pereira
CAPRICHOS DA VIDA
Segue tua estrada torta,
ó vida, além da porta
existe um mar de caprichos
em arabescos, em nichos,
só perdendo pra esperança,
tamanhos os fios que ela trança
nesta floresta habitada
por surpresas e mais nada.
À frente, sol e poeira
são tuas rotas verdadeiras
no deserto do destino.
Aqui chegaste, menino,
cantaste a canção do mundo,
mas um silêncio profundo
tirou o brilho do encanto
e sequer secou-te o pranto.
E o amor com que sonhaste
pegou da luz o contraste
e, sem ver, jogou-o ao vento
que turvou teu pensamento.
Certas coisas ninguém nota
é felicidade remota
bem camuflada na história
e no silêncio da memória.
Basilina Pereira