O VERSO LIVRE
Hoje enveredei pelos campos da saudade.
Não queria, mas assim mesmo fui.
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Deixei de lado as cerimônias de adeus
e pintei apenas a emoção do encontro:
tão longe, tão próxima e real...
Na minha tela mesclaram-se
o seu sorriso da chegada
o abraço e aquela sensação
que não cabe em nenhuma palavra.
Quem disse que o passado é poente
não sabe do que é capaz um verso
que transita livre
pelas cores da memória.
Basilina Pereira
INCOERÊNCIAS
Pode ser noite ou ser dia
busco o regaço da lua
mesmo o longe fica perto
se o silêncio cobre a rua.
Há lances claros no escuro
do amanhã, coisa intrigante,
altos...baixos todos têm.
Basta ser perseverante?
Onde estará tal resposta
Não a encontro, todavia,
se choro ou canto, quem sabe,
será de dor...de alegria?
É grande a minha ansiedade
por um ídolo...uma musa
que ilumine a minha a alma
seque o pranto e me conduza
do choro ao riso em instante:
partes da mesma emoção,
assim como o claro e o escuro
dão equilíbrio à estação.
E entre o começo e o fim
segue o bailado da vida
enquanto brilha a chegada,
surdo é o farol na partida.
Basilina Pereira
METAMORFOSE
O poema gesta, mudo.
Há dias em que ele se insurge
em sua intumescência de feto
e insinua-se, como Aurora,
para logo amanhecer.
Se alguém pensa
que esse parto não dói
é porque não percebeu
o sofrimento da palavra,
ao sair do casulo
e virar poema.
Basilina Pereira
EU QUERIA
Hoje eu queria dançar num chão de nuvens,
exorcizar todos esses sentimentos sem dono
que em noites desertas me invadem o sono.
Hoje eu queria sentir aqueles aromas ingênuos
de terra sedenta, molhada, depois da chuva
e sentir o barro entre meus dedos, sem luvas.
Hoje eu queria esquecer as distâncias,
a lembrança agasalhada no silêncio
e a promessa que ficou presa num desvio.
Hoje eu queria voar aprisionada nas palavras,
libertar as estrelas de suas rotas estremadas
e retratá-las na luz da madrugada.
Hoje eu queria esquecer de um dia haver chorado,
expulsar meus medos sem perder a calma
e descobrir se a lágrima seca molha a alma.
Basilina Pereira
O QUE FALTA?
Estou entre o sim e o não,
à procura de um talvez.
Pode ser que essa dúvida,
que amanheceu rangendo em minha palpitação
seja a gota invisível que nada fala e tampouco cala.
Quem sabe um ritmo novo de pulsar
anule essa inquietação obscena que chega tão perto, mas não alcança,
quer descobrir oque falta e não sabe como.
Basilina Pereira
QUANDO SURGE O AMOR...
Vem no rabo de um cometa
não sei se queima ou assopra
de aluvião, sem espreita,
abre de vez as comportas
que estiveram represadas
num chão de barro pisado,
ergue-se em placas douradas:
que venha vento ou tornado!
Quando acontece o amor,
todo o céu fica bordado
a alma dança em esplendor
é música pra todo lado.
E de fagulha e encanto
estremece a cordilheira,
no horizonte cai o manto
florescem as cerejeiras.
A lua pede licença
pra brilhar bem devagar
e as estrelas, por nascença,
são cúmplices, podem olhar.
Basilina Pereira
ADOLESCÊNCIA
Não há segredo mais antigo
a dispensar qualquer abrigo
que a metamorfose da vida
menos ...mais... sempre vencida
pela beleza que desperta
quando a estação é certa,
é a força do mar revolto,
corcel bravio e bem solto.
É quando a casca macia
desprende-se, quer alforria,
lá fora o vento é procela
mas cheira à doce canela.
Nem todo o saber mutante
explica a mágica do instante
em que a criança arredia
abre o laço da ousadia.
Basilina Pereira