terça-feira, 20 de novembro de 2012

SAUDADE

Era pra ser diferente
 mas um estrela cadente
aumentou minha fantasia
e eu sonhei à luz do dia
com fadas e vaga-lumes
e até senti o perfume
da trepadeira lilás,
cheiro doce de ananás
que vinha lá da varanda
onde se armava a ciranda
no quintal de chão batido
e tudo fazia sentido
de manhã ao entardecer.
Ouvi o canto das cigarras
que na maior algazarra
desafiavam os pardais
saltando sobre os beirais
do casarão de madeira.
E não foi a vez primeira
que imagens tão faceiras
me trazem recordações
de tão doces emoções
arquivadas na infância,
vivas e belas lembranças
das bolinhas de sabão
que me fugiam da mão.
Esses quadros na verdade
me acompanham na saudade.


Basilina Pereira

domingo, 4 de novembro de 2012

INOCÊNCIA


INOCÊNCIA

 

Bem no fundo deste mar

há uma concha bem fechada

lugar certo pra guardar

a pureza preservada.

 

Tantas águas já passaram

e sua crosta  inda resiste

seus veios já se afinaram,

mas a pérola ali existe.

 

Às vezes por atos falhos

 sonhos bons foram ceifados,

tantos gritos nos atalhos

e o horror dos mutilados.

 

Janelas vendem silêncio

e inconfessos patuás,

marcas tristes pelos lenços

perguntam: o que restará?

 

Pouca coisa , com certeza,

da esquecida inocência

flor ardida sobre a mesa

aguarda voz de clemência.

 

Ainda que o sol não venha,

mesmo que a lua se vá,

as estrelas têm a senha

e clamam pra luz voltar.

 

Basilina Pereira

 

 

sábado, 3 de novembro de 2012

MEU PAI E MAR

MEU PAI E O MAR

Meu pai não conheceu o mar.
Em sua solidão metódica,
penso que ele sonhava com a imensidão azul
que bailava pra lá e pra cá,
tendo como fundo musical apenas os acordes do vento.
Na luta de cada dia, aqueles olhos serenos
viajavam por distantes paragens
e, em constante solilóquios,
sondavam os limites do horizonte.
Sua maior ação – contemplação.
Noite após noite, mirava as estrelas
que se sobrepunham ao tempo e,
no espelho do céu, admirava as nuvens
em seu bailado indiferente
quando brincavam de fingir imagens
e depois se dissipavam no ar.
Ainda assim meu pai pensava no mar.
Mesmo quando a brisa amena da tarde
dobrava suavemente as folhas do arrozal
seus passos lentos sonhavam com ondas
que, possivelmente, viriam desabrochar na areia.
Entre os veios da memória guardei
muitas histórias de lobisomem,
 tantas lições extraídas de sua aritmética
e sua dúvida maior: onde será o fim do mundo?
Será que fica além do mar?

Basilina Pereira
 

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

A MÚSICA QUE HÁ EM MIM

Não é fácil ser musical.
O canto que hoje tenta nascer
viveu muitos anos encapsulado,
coberto por uma cortina de medos,
 insegurança e conformismo.
Foi difícil romper o lacre e espreitar o outro lado.
E mais ainda atravessar o muro, enfrentar o escuro,
expor as fragilidades e correr o risco de desafinar.
É mais seguro esconder o sentimento que ensaiar uma nota.
Pode ser que a escala busque memória num setembro antigo
e retorne em forma de suspiros
por um amor que tocou o sonho da menina
e a fez ouvir sons de um violino.
É certo que o vento de agosto me sugere “O Viajante”,
acordes de um certo amante que aranhou minha poesia.
Mas mesmo riscada, minha fogueira quis “A Lenha”
e não sei qual foi a senha pra aquele amor desabar.
Ainda assim procuro a música.
Seja ela de vanguarda ou esquecida, popular ou erudita,
basta que mantenha acesa a canção que existe em mim.


Basilina Pereira

O EIXO

O EIXO

Neste mundo aportamos
sem mares, sem caravelas,
nada diz porque chegamos
a este beco de vielas.

E o caminho aí começa
sem manual de instrução
tudo é longe, haja pressa,
correm os pés e as mãos.

Numa aventura tão ampla
o corpo reclama a rede
e a alma, às vezes, descampa
solitária em sua sede.

Uns chegando outros partindo
sem saber como e por quê
e os degraus vamos subindo
pra onde... não sei dizer.

E o segredo assim persiste
além do tempo e da hora
há quem nos campos insiste
e os que partem sem demora.

Cogitam tantos desfechos
dessa viagem sem par
só não decifram o eixo
que faz a roda girar.


BasilIna Pereira

terça-feira, 11 de setembro de 2012

CONVERSA COM O MAR

CONVERSA COM O MAR

Sentada na areia
 curvo-me sobre minha própria concha
enquanto nuvens cobrem meu rosto
e o ar magnetiza meus olhos e minha mente.
Meus pensamentos têm nuances de ilusionismo
que confundem a pouca lucidez.
Minha voz, tímida diante das ondas,
pergunta, num sussurro, onde foi parar a canção
que meu peito lançava aos quatro ventos
nas cálidas manhãs de verão, entoando versos
da mais plena afinação?
Tenho medo da resposta,
de que ela venha como um maremoto
e me impeça de sentir o balanço das ondas
afagando o pouco de fantasia que restou
 daqueles antigos olhos de promessa
que um dia inundaram meu coração.
Insisto em perguntar ao mar
se nos lugares por onde andou
acaso ouviu aquelas notas no ar?
E o que ouço é meu próprio silêncio,
sinto aquele cheiro de mistério,
envolto  em noites e maresias
 e um sabor enigmático na garganta,
resquício daqueles beijos
até hoje emoldurados na saudade.
Sob meus pés indecisos, só as espumas
cumprem o seu ritual de ir e vir.

Basilina Pereira


 

domingo, 2 de setembro de 2012

LINHAS DA MÃO

LINHAS DA MÃO

Abro a mão.
Um redemoinho de linhas me olha, taciturno,
como um espelho quebrado.
Tento desentranhar os traços
que se cruzam e se entrelaçam,
bordando o desenho do meu destino,
mas só tenho o ponto de partida, sem chegada.
Quanto mistério se esconde nas entrelinhas
 desta  arquitetura que, dizem,
foi projetada antes do alvorecer.
Eu continuo prisioneira desse enigma...
Vislumbro a sombra do meu roteiro,
detalhes incertos, imprecisos,
que nada dizem.
Comparo, indago, insisto,
só uma teia obscura continua a me desafiar:
quem comanda este roteiro
entre o princípio e o fim?

Basilina Pereira