terça-feira, 17 de novembro de 2015

O MANDAMENTO



Um poema para fechar a tarde.

O MANDAMENTO

Um corpo que ainda sente o refluxo da água
e toda aquela quietude líquida
que vai se juntando...juntando...
até tornar-se azul.
E uma alma, rica de silêncio,
que se abre aos sons menores:
aqueles só sentidos por dentro
na intimidade da emoção.
No meio do espanto, a pergunta:
será isso a felicidade? Onde abrigá-la
para que não se perca no burburinho do concreto?
Pensando bem...não! Não se deve guardá-la,
pode ser que ao libertá-la, ela tenha a chance de crescer
e multiplicar-se.

Basilina Pereira

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

A TRAVESSIA

A TRAVESSIA
O dia perpassa costurando as horas...
no ritmo de quem subiu o monte só,
sem nenhuma outra vontade
que não a de estar ali, envolto em si mesmo,
frente ao espelho da verdade
que às vezes sorri, por outras cobra
tudo o quanto não foi.
No fim da tarde, o crepúsculo avisa:
nem sempre os deuses descem do Olimpo
para ajudar na travessia.
Há um lado escuro, bem no meio da noite,
onde a sombra segue de mãos dadas com o medo
e o relógio não diz
a que horas vão florir os girassóis.

Basilina Pereira

terça-feira, 10 de novembro de 2015

RETEMPO



RETEMPO

O amanhã é sempre um convite
bordado de cores, entremeado de brisa.
Com ele seguem nossos passos inquietos
ora seguros, ora hesitantes.
A tarde é o meio do caminho
de onde não se pode voltar sem um bom motivo,
é uma folha diante do espelho:
admite um leve olhar pelo retrovisor,
mas só pra indicar o quanto temos que acelerar.

Basilina Pereira

domingo, 8 de novembro de 2015

PRELÚDIO

PRELÚDIO
Palavras beijam as folhas
só para o verde acordar
e a canção que era semente ...
espalha cores pelo ar.

O verso que então gestava
de repente floresceu,
pescou estrelas cadentes
criou um instante só seu.
O poema fez-se música
nas cordas de um violão,
prelúdio de uma cantata:
sentimento em efusão.
E a poesia de uma nota
ressoa qual serenata,
de gota em gota o momento
reluz feito uma cascata.
Basilina Pereira

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

ENTARDECER



ENTARDECER

Os pássaros vão construindo a sinfonia da tarde
com sua linguagem de sombras
que semeia orvalho sobre o calor.
Eu sigo vestida de ontem
com um olho no crepúsculo
e outro no amanhecer.
A vida nem sempre desenha quimeras,
embora... muito embora...
seja preciso sonhar
para que a brisa acaricie a flor
no momento certo
e o poema seja o oásis
onde a alegria possa morar.

Basilina Pereira

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

EM SILÊNCIO



EM SILÊNCIO

O silêncio é a pedra de sal
que resiste aos tremores da alma.
Longe das madrugadas,
o vento escorre lúbrico
e colhe a sensação da chuva
que transborda das paixões lunáticas.
Só as estrelas descortinam.
Seu brilho não destrói o medo do escuro,
mas transpõe a barreira das lágrimas
e, em silêncio, descansa no poema.


Basilina Pereira

domingo, 1 de novembro de 2015

SONETO DA ESPERA



SONETO DA ESPERA

Voo no tempo que não vai nem volta
preso na tarde desses sonhos meus,
sei que a alvorada está para o poente
como os meus dias procurando os teus.

Se permaneço nesse céu sem cores
é pelos timbres que a memória guarda,
num vale longe onde mora o nunca
talvez o sempre prepare a vanguarda.

Assim meus olhos colhem na janela
o canto aflito da ave ferida
pra transformar, quiçá, em aquarela.

E mesmo ali sob nuvens errantes
as horas dormem qual lua esquecida
e eu pesco estrelas qual fossem diamantes.

Basilina Pereira