terça-feira, 17 de junho de 2014

INQUIETAÇÕES II


INQUIETAÇÕES II
 

Olho a paisagem nova

com olhos da cor de ontem,

mas só vejo o ar inquieto

e o horizonte abstrato.

O mar grisalho navega as mesmas ondas

com a paciência dos galhos

que não têm data para florescer.

Instigada, pergunto-me:

onde buscar uma borboleta,

uma gota de orvalho,

com laivos inusitados?

Exploro arredores,

corredores sem portas,

janelas sem amplidão.

Leio livros de Sartre, Drummond e Clarice,

procurando o acervo de ternura

que possa durar além dos dias.

....

Terei que cultivar terras mais férteis

para limar  meus sentimentos?
 
Basilina Pereira

 

sexta-feira, 13 de junho de 2014

CAMINHADA


CAMINHADA 
 

Às vezes é preciso renascer

das cinzas que cobriram nossos sonhos

e fazer da caminhada - prazer -

 mesmo ao lampejo de um trovão medonho.
 

Em toda estrada sempre há tropeços.

Viver é gloria e também perdição,

o tempo é fluido desde o seu começo,

não vinga a flor que nasce da ilusão.
 

Que bom seria se todos os males

só fossem lendas de outra existência,

mas eles cantam em todos os lares

não conta a grei ou  sua descendência.
 

Nesta vereda sigo e mais não sei

nem há oráculo que possa explicar,

mas se tranco a vida nunca enxergarei

o quanto uma emoção pode brilhar.
 

Basilina Pereira

quarta-feira, 11 de junho de 2014

BRANCAS NUVENS


BRANCAS NUVENS
 

Esta noite passou em brancas nuvens:

nenhum vento na janela,

nem o cachorro latiu.

A festa do vizinho gorou,

o telefone não me trouxe aquela voz,

o galo...onde foi parar o galo?

No céu, silêncio de estrelas,

uma lua reticente

 e muitas respostas à deriva...

só achei filmes sem cor na tv

e perguntas sem coragem de nascer
 

Basilina Pereira

 

sexta-feira, 6 de junho de 2014

OUSADIA


OUSADIA
 

Às vezes me invento poeta.

Ousadia de quem não tem medo

de turvar as primaveras.

Cometo excessos,

me rendo ao cansaço e sofro...

Vez ou outra um gesto insano

desafia aquela chuva teimosa

que molha meus pensamentos

e eu me afogo em lembranças

aprisionadas no triunfo

de uns poucos versos

insossos como a fria água partida.

Tento lustrar os vocábulos

mas o brilho está além de algumas rimas.

Só então percebo que para o poema florir,

há que se adubar as palavras. 

Basilina Pereira

 

quinta-feira, 5 de junho de 2014

APELO


APELO 

Lua cheia em plena nave,

mãe do espaço estelar,

eterniza esses meus versos

como faz com a onda do mar!

Irriga o meu sentimento:

este elã que não tem par,

nas ondas do pensamento

e em teu brilho quero estar,

flutuando sobre  as rimas

ao encontro do verbo amar.

Na lâmina que corta a dor

na verdade a se buscar

no antídoto do engano

com paixão quero ficar.

Tanta pergunta latente

e resposta sem lugar,

mas o tempo do poema

esse não pode acabar! 

Basilina Pereira

segunda-feira, 2 de junho de 2014

CISMAS


CISMAS
 

Sou filha da primavera,

quero a chuva pra florir

tenho tanto pra dizer,

não dá mais pra só sentir.

 

Mas o que sinto e não nego,

só vai caber num poema,

no recinto das palavras

que bordam rimas serenas.

 

Vou falar do voo nascente,

que rasga o medo no escuro

dos sonhos vivos, recentes,

que um dia serão maduros.

 

E entre as outras estações,

quando eu tiver que fugir

do calor ou neve opaca,

mesmo assim vou transgredir

 

a orla do pensamento,

riscar o fundo do abismo,

voltar a qualquer momento

com tudo aquilo que cismo.
 

Basilina Pereira

 

domingo, 1 de junho de 2014

A PROMESSA


A PROMESSA
 

O sol se deita com as lembranças

e feito um deus crepuscular

mergulha na noite

atrás da lua.

Seu desígnio é estar preso

à promessa de voltar.
 

Basilina Pereira