sábado, 10 de maio de 2014

LIBERDADE


 LIBERDADE
 

É a força do pensamento

no espaço que é só seu,

é aquela vontade única

que ainda ninguém tolheu.

 

É o canto do sabiá

ondulado de emoção

entre as folhas da mangueira

numa tarde de algodão.

 

O horizonte em alto mar

com a brisa de encontro ao peito,

o poeta em utopia

rumo ao poema perfeito.
 

Basilina Pereira

 

quinta-feira, 8 de maio de 2014

DUELO DE SONHOS


 

DUELO DE SONHOS
 

Uma nuvem de chumbo anuncia:

chuvas na orla do pensamento

e, na superfície, muitos anseios

querem sol e a luz do dia.

No céu, eclipse lunar.

Aqui, um duelo de sonhos

atropela signos abstratos

e a poesia, surpresa, colhe

a realidade efêmera do mundo:

 tantas cores, diversos valores,

instantes vazios, calafrios,

sentimentos, delitos isentos,

o fim trágico e o recomeço.

Só a palavra viva resiste

como vestígio da têmpera

que ainda habita o porão da alma.

Em meio ao que sonho e ao que sou,

o poema acontece.
 

Basilina  Pereira

quarta-feira, 7 de maio de 2014

O LIMITE


O LIMITE
 

No meu anseio ainda é véspera.

A palavra arde no hemisfério da boca

como a esperança de ré.

Há uma múmia crucificada,

alimentando meus medos

e minha bússola se fragmenta

em arroios indefinidos.

Quero juntar pedaços,

chegar ao cerne,

apagar a flama da luz

que ofusca o brilho das estrelas,

mas só há fragmentos.

O percurso escorre sem direção

e meu olhar desfocado

procura o fogo ancestral

pra descobrir o limite

entre o espinho e a flor.
 
Basilina Pereira

terça-feira, 6 de maio de 2014

TORNEIOS MENTAIS


TORNEIOS MENTAIS
 

Em sonho, piso o telhado da noite.

De lá, vejo estrelas surreais

e fico imaginando como fracionar a lua.

Quem sabe... num dia de chuva...

figuras ambulantes pelas varandas

alimentado meus torneios mentais.

Quantos sentimentos avessos,

amores desencontrados,

feridas que o tempo não curou

e, por vezes, me olham de soslaio!

Em meio a um cansaço moído

procuro o verso indefeso.

Que ele possa reinventar as tardes antigas,

quando o vento era quase uma canção-menina

e as flores, ainda despertas,

guardavam em seu perfume

a promessa a se cumprir.

 

Basilina Pereira

segunda-feira, 5 de maio de 2014

BARBARELA


BARBARELA
 

Por uma janela inusitada

afino meu destino

na poeira das estrelas.

Colho o legado do tempo

e semeio meus versos híbridos:

solstício de uma rima remota,

herdada dos parnasianos.

Os ícones cravados na parede,

estigma dos insurretos,

querem embargar o poema.

Meu íntimo resiste:

a poesia retrusa me restringe a alma.

Sou Barbarela saindo em defesa da flor,

quero seu vértice no vento

e a vazão do sentimento.
 

Basilina Pereira

domingo, 4 de maio de 2014

A COR DO POEMA


A COR DO POEMA
 

Não sei fazer versos grises.

Contorno, retorno e lá vem

as cores camufladas nas palavras

veladas, mas cobertas

pela fumaça do arco-íris.

Sei que a vida, às vezes, se ressente de brilho

e o poeta carrega um rio nos olhos,

mas o poema! Ah! o poema!

No seu silêncio caloroso,

revela a resistência das manhãs de sol

e qual um chafariz no meio da praça,

parece dizer: - bom dia, aquarela!

 

Basilina Pereira

 

quinta-feira, 1 de maio de 2014

O AMARGO DA LÍGUA


O AMARGO DA LÍNGUA

 

A tarde me recebe sonolenta,

cinzenta, até parece uma nuvem descontente.

Rabisco cicatrizes em forma de poemas,

emblemas iguais àqueles tantos

cujo encanto

ficaram pendurados nas manhãs de sol.

Arrebol. Mas onde foram parar os versos

- diversos - que me lembravam sons de harpa?

Escarpas também escondem letras,

palavras,

que degolam sentimentos,

momentos naufragados na memória,

que não tem cor,

mas comporta-se como real camaleão

e, à-toa mesmo, traz de volta

o amargo da língua.

 

Basilina Pereira