domingo, 23 de março de 2014

CUMPLICIDADE

CUMPLICIDADE

Vaga música martela meus ouvidos,
quebrando um silêncio que não era de ouro,
mas valia cada nota sem eco.
E o relógio buscava a hora presente,
aquele lapso de tempo
enroscado em si mesmo
que ao piscar de olhos
já não é mais.
Mergulho no vazio pleno
de minhas perguntas abstratas.
Por que é mesmo que escrevo?
Por falta de outra coisa ou por um chamado ancestral
que me dita o ritmo das palavras
alheio a suas melodias e abstrações?
Volto ao ponto de partida
e lá está o violino plangente
que nem grita e nem se cala.
A noite deveria ser um tapete
a embalar o beijo das almas.
Na parede, um espelho baço
me sugere cumplicidade.

Basilina Pereira

sábado, 22 de março de 2014

COLEÇÂO

COLEÇÃO

Quase todo mundo coleciona alguma coisa.
Eu preferi não arriscar.
Talvez por falta de criatividade
ou, quem sabe, por um apelo inusitado,
pintei a vida em preto e branco
e, no jardim dos esquecidos,
decidi colecionar olhares:
olhar de tristeza,
de medo,
decepção...
faltam palavras
pra definir todos os sentimentos
esquecidos
entre um lampejo e um piscar de olhos.
E assim,
sem espaço e horizonte
sigo captando o brilho ou a sua falta
que nas madrugadas
transformo em versos.

Basilina Pereira

sexta-feira, 21 de março de 2014

UM SONHO

Eu quis construir um sonho
sem limite nem medida,
feito a alma do poeta
no instante da despedida.

Tive a visão do universo
no espelho fluido do mar
onde as estrelas pintavam
as letras do verbo amar.

Embalei então meu verso
no silêncio de um casulo
fiz da partida um regresso,
tornei claro o que era escuro.

Depois pintei na retina
a essência de um poema
e a imagem de tão bela
pediu corpo e uma forma.

Enquanto o mar e o céu
saudavam o novo dia,
adornei meu sentimento
e transformei em poesia.

Basilina Pereira

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

FLOR TARDIA

Pediram-me pra não rimar.
Mas isso é desmontar meu coração,
é abrir a janela
e perceber que não há sol,
um soco rasgado no poema,
é a eclipse da emoção.
É tão bom poder rimar amor e...(flor)!
Não sei usar só o esqueleto das palavras.
E onde ficam os ecos das metáforas
que revestem de brilho a poesia?
Acho que também perdi o bonde
e no jardim onde queima a minha face
sou apenas uma flor tardia.

Basilina Pereira

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014


ILUSÃO DE ÓTICA

De tanto trancar portas
tenho medo de abrir as janelas.
Os meus armários estão fechados,
o meu rádio tem censura
e os chinelos vivem escondidos embaixo da cama.
Notei que as cigarras andam cantando menos,
será por receio das formigas?
O medo anda me pregando peças.
Outro dia vi um filete de sangue
embrulhado no jornal
e uma bala de calibre duvidoso
espreguiçava-se em frente à televisão.
Limpei os óculos e fui molhar as plantas,
pode ser que as formigas estejam em paz.

Basilina Pereira

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

sábado, 16 de novembro de 2013