quarta-feira, 17 de abril de 2013

EPIGRAMA SEM FORMA


EPIGRAMA SEM FORMA

Quisera ser como o vento
sem forma, só pensamento...

Contornar vales e montes,
beber da água na fonte,

tecer o molde da noite
por uma estrela que foi-se

e pousar no tempo exato
entre as curvas dos teus braços

Basilina Pereira


terça-feira, 16 de abril de 2013

BRENHAS

BRENHAS

Andei, andei, devagar
depois apertei o passo
queria logo avistar
o outro lado do poço.

Andei, andei, mais depressa
com medo da ventania
transpus pântanos,florestas
e não vi o novo dia.

Andei, andei e corri
nas brumas próprias do escuro
e em algum lugar me perdi
entre o passado e o futuro.

Vislumbrei sombras alheias
que a minha luz era utopia,
senti meus rios nas veias
em caudais de maré fria.

Andei, corri, me embrenhei
em busca de alma recíproca,
mas digo que só encontrei
parco afeto, em dose pouca.

Basilina Pereira


SUFOCO

SUFOCO

Há uma noite inteira pra chorar
sobre a lágrima derretida
e um dia somente
pra ver que a mágoa
é palavra perdida
no labirinto sem cores.
O grito destrói o silêncio,
ignora a parede,
desarma a fúria,
liberta
o segredo e a solidão
ocultos no sufoco da palavra.

Basilina Pereira


domingo, 14 de abril de 2013

ESPERANDO A PRIMAVERA


ESPERANDO A PRIMAVERA

Esperei o novo dia
como sempre eu já fazia:
ali, sentada sobre a relva,
sentindo o cheiro da terra.

A chuva encharcou meus dedos
entre os assombros e os medos,
o vento, por fim, soprou
e nenhuma estrela brilhou.

Eu fiquei ali sozinha
com a dor que era só minha
e por meus olhos de silêncio
lágrimas molharam um lenço.

Chorei ausências e mágoas
querendo a luz na gota d’água.
-É pedir muito, primavera,
ser de novo o canto que eu era?

Basilina Pereira

sábado, 13 de abril de 2013

HORIZONTE

HORIZONTE

O horizonte sempre é
desafio, inquietação...
No poente tenho fé,
pois abre a imaginação.

É um canto de cotovia,
um crepúsculo em arrebol,
um arrepio na montanha
que aplaude o pôr-do-sol.

E cada estrela desperta
Traz um brilho diferente,
é a síntese maior da festa,
um motivo à nossa frente.
Basilina Pereira

CANÇÃO PARA CECÍLIA

CANÇÃO PARA CECÍLIA

Mergulhei no teu poema,
bem fundo, pra resgatar
o teu sonho do navio
que puseste a naufragar.

Depois sequei tuas mãos
molhadas de águas do mar,
senti as ondas voltando
para os teus dedos beijar.

E o vento vindo de longe
cobriu a noite e o vazio
gritou que estava morrendo
um sonho dentro de um navio.

Então pedi para o vento
se acalmar, fazer um ninho,
pra que o sonho naufragado
voltasse à tona sozinho

e nadasse até a praia
pra ver a beleza que existe,
pois um poema tão lindo
não merece um final triste.

Basilina Pereira


sexta-feira, 12 de abril de 2013

O CANTO

O CANTO

Há um pássaro que canta
todas as manhãs no meu quintal
e o seu cantar assim me encanta
pois nunca ouvi outro igual.

É um trinado longo, singular:
sereno, mágico, perfeito...
tem um ritmo modulado, angular
feito as batidas do coração no peito.

Outro dia procurei-o
no alto da mangueira, um lugar falho...
cheguei mais perto e o avistei
cantando acima, num galho.

Fiquei ali, quase em transe, extasiada...
Ele cantou e voou, sem despedida,
foi um momento daqueles que a nada
se compara, só mesmo à vida.

Basilina Pereira