quarta-feira, 14 de abril de 2010

RECORRÊNCIA



Acordo mais uma vez


após o mesmo sonho:


estou descalça no meio da multidão.


As pessoas me olham em desafio,


como se cobrassem uma adequação.


Sou inadequada: piso direto no chão


e sinto as pedras se movendo sob os pés.


A noite me desafia com seu silêncio.


A falta de palavras inibe o pensamento,


como se a ausência do som


espremesse minhas ideias.


A sensação é de nudez:


uma vida está vulnerável


porque falta uma peça no quebra-cabeça,


este que se insinua no meu sono,


e quando abro os olhos é vazio.


Os ecos da memória estão presos numa caixa,


cuja senha talvez seja a palavra “sapatos”.


Por que preciso deles,


se minha identidade está nas linhas da mão?


Até quando terei de me esconder no vão dos dedos


onde as reprovações não alcançam?


Basilina Pereira
ALTERNÂNCIA


Tenho dois cordões


que controlam meu pensamento:


um avança, o outro recua


e os dois se debatem sobre o ponteiro


que marca sempre a mesma hora.


Enquanto eu ergo os olhos,


uma luz me ultrapassa os cílios


por onde vejo dois faróis:


seus olhos continuam ali, indefinidos.


Se pelo menos houvesse uma fissura


por onde escorresse uma lágrima,


eu saberia...


mas na alternância das sombras,


só esse vinco rugoso


que desconhece


o quanto dói não saber.


Basilina Pereira

sábado, 13 de março de 2010

KAMA SUTRA


KAMA SUTRA


O poema é vento ousado


quando o assunto é poesia,


o amor tem que ser versado


seja noite ou seja dia.


Seu compasso busca a lavra,


balança o abraço invertido


e no orgasmo da palavra,


tudo muda de sentido.


Nada pode ser banal:


seu limite é o universo,


vale até rima carnal


nas entrelinhas do verso.


Basilina Pereira



terça-feira, 9 de março de 2010

SÚPLICA
Inspiração,


a ti dirijo-me


toda vez que o sorriso fecha,


a brisa se esconde entre a neblina


e o poema fica travado.


Imploro-te


por um cheiro de guirlandas,


pela cor quente da canela


e por um verso em Ré Menor


que me faça lembrar Beethoven


em sua nona Sinfonia.


Suplico-te:


quando eu for digna desse momento,


que ele seja humilde feito o beija-flor


e grandioso como o entardecer.


Mas que eu esteja lá – em transe –


e nem perceba que a lágrima


às vezes pode ser doce.


Basilina Pereira

domingo, 7 de março de 2010

SENSAÇÕES

SENSAÇÕES



Respiro fundo


para ver se alcanço o limite


da sensação que me escapa:


essa incerteza de voz


feito o eco de um grito,


que resvala e volta sem direção.


Confundo-me no ventre da noite:


há palavras que me açoitam


como se de suas asas fossem brotar labaredas


e outras que me acariciam,


sem mais nem menos, apenas para mostrar


que a ausência de luz na face


vai refletir na cor do poema.


Então, busco um sorriso naqueles dias


em que a primavera chegou antes do tempo


e escrevo...mesmo que seja só pra dizer


que há poesia num instante de silêncio.


Basilina Pereira

ATAÇÃO

ATRAÇÃO



Minha relação com as palavras


sempre foi de eterno querer:


uma atração meio ousada e avessa,


de desafio secreto e maroto.


Elas me instigam com sua apoteose de sentidos,


confundem-me quando mais preciso ser clara


e se escondem, por vezes,


no branco absoluto da memória.


Mas aí, eu as amo ainda mais:


quero-as o tempo todo em minha boca,


em meus silêncios e até na imaginação.


Eu, sem palavras, sou Sansão sem os cabelos,


a rosa sem seu perfume e uma praia sem verão.


Mas quando, num átimo, nos entendemos,


o meu Olimpo se enche de deuses


e, imbuída de seus poderes, eu faço versos


como quem planta seu suor na terra


para ver brotar a exuberância da semente.


Basilina Pereira



quarta-feira, 3 de março de 2010

POSSIBILIDADES



Que minhas portas se abram de mansinho,

isentas do sarcasmo e da tristeza,

longe dos ventos que não sejam mensageiros

para que eu possa pressentir a primavera.

Que as janelas descortinem para o vale

onde eu possa vislumbrar o horizonte

e, de carona, seguir a rota do mel

desenhada no contorno dos teus lábios.

Que meus olhos se deleitem com o jardim

e eu colha na quietude das flores

a certeza daqueles sonhos marotos

que desabrocham toda noite, entre as estrelas.

Basilina Pereira