terça-feira, 9 de outubro de 2007

AMIGOS

AMIGOS Vocês salpicam o meu painel de estrelas, acenam com o lenço da chegada pra suavizar a partida, fazem-me lembrar que o canto não só rima com encanto, mas dissipa mágoas, adoça a vida. Nesse estreito que se chama caminho não se consegue avançar sozinho nem aplaudir o ato com um dedo só, são pequenas alegrias e momentos, gestos suaves, divisão do sentimento, que ultrapassam o limite da bondade e constroem, gota a gota, a felicidade. Basilina Pereira

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

O ELO

O ELO Do que preciso nesta rota caminhada presa no tempo, se é poente ou madrugada? Em luz ou sombra meu destino é adejar por fantasias, como um pêndulo a bailar. A espada pende onde goteja a esperança, são muros loucos que desafiam a bonança: pequena trégua, senda por onde caminho. Onde está Pégaso? quero encontrá-lo sozinho pra indagar sobre o infindável mistério: qual o meu elo nesta corrente do etéreo, onde me encaixo na intumescência da vida? Se basta o ópio ou é mais ampla a ferida que tange o corpo nesse compasso de espera e faz da luz uma esfinge de quimera. Basilina Pereira
VESTÍGIOS A tarde entra pela janela. Reflexos úmidos acompanham a brisa que instiga devaneios e se perdem entre os parcos receios de uma mente tagarela. Entrego-me à divagação... Refaço o percurso, nos campos, nos palcos: percebo fissuras nas velhas molduras que tentaram resistir ao cansaço, o velho novelo já não prende o laço, foi corroído pelo nó cego. A gangorra oscila entre a fraqueza e o poder, fios de uma mesma meada, nuances de quase nada, que, hoje, desnudam o ponto em que a magia se perdeu. Como são cruéis as lembranças: voltam, mesmo se apagadas e fogem...as desejadas. São sensações demasiado humanas, envoltas na ousadia improvável do esquecimento, poço sem fundo,de onde ressurgem, com outra roupagem, vestígios transmutados de uma alegria que a estrela da tarde não levou. Basilina Pereira
SENTINELAS Banco da praça depois do passeio, na vertigem da tarde que cai, sobem as ruas e as avenidas descem pra ver os amantes, que vão na frente. Atrás, uma cortina de segredos. A censura segue por último, como um velho pastor a velar por ovelhas indefesas que, em bando, buscam miragem em sua cálida inocência. O roteiro é mutante, inútil disfarce pra quem baila na volúpia do primeiro amor, sentimentos instáveis, ardentes...receios? nenhum o anseio é constante, a magia, real: os encontros furtivos,olhos nos olhos querendo mais... Os dedos se tocam em arrepio, é o tempo que desmaia. Foram muitas as testemunhas que velaram esses encontros: esquinas, portas, varandas e janelas, que até hoje permanecem mudas, como sentinelas. Basilina Pereira

Medo de Amar

MEDO DE AMAR Quando o sol se vai fica a certeza do amanhecer, mas a ausência do amor perdido deixa um lapso, um não-querer capaz de ignorar a aurora e tudo o mais que venha a ser. É tanto medo, travestido, camuflado, invertido, só num canto, esquecido, nem quebranto mina mais a alegria que o pavor – de um novo amor, de um novo dia. Mas a mesma onda que leva no balanço é a que traz novos ventos, novas flores e, às vezes, surpresas mais. Quem sabe num chão de abril... ...um botão de edelvais?

domingo, 7 de outubro de 2007

Nuances de Primavera

NUANCES DE PRIMAVERA Antevendo a primavera, os pássaros fazem seus ninhos, lançam gorjeios , esperam, não querem cantar sozinhos. No calor que se agiganta, os ipês põem ouro em pó, com acordes na garganta, canta livre o chororó. O vento brinca nas folhas da mangueira em floração, o sabão se torna bolhas que bailam com a emoção. Os jardins, antes sem lume, desabrocham em aquarelas vários tons, muitos perfumes, novas flores nas janelas. A chuva oblíqua da tarde traz a calma, lava o manto, na manhã que o céu invade não há lugar para o pranto. E toda a vida se agita só há romance no ar tudo é belo - a alma grita - no céu, na terra e no mar. Basilina Pereira